domingo, 3 de agosto de 2014

Frete

Louças na pia: Noite atípica de inverno. Em meio à estação mais gelada do ano, o vento que fez cócegas em nosso rosto era morno. O céu parecia de verão: forte azul e nuvens claras. No jardim de casa as garrafas vazias e os pratos sujos da noite anterior. E sinto o cheiro do seu tempero.

Mais sentimental: Hoje é domingo e se este dia da semana possui em sua presença uma sensação de fim e recomeço, nesta noite ela se tornou mais forte. Eu sei que você ainda continua na mesma cidade, em bairro não distante. Acontece que te ajudar com as roupas e os livros, os mesmos que pintaram o quadro da nossa história, fez esse domingo parecer mais estranho que os outros.

Doses exageradas: Aquela xícara que eu gostava, branca e preta, a pequena que me servia na medida exata de meu gosto. Pode levar. Leva porque eu me lembro você esperando eu terminar meu café pra beber o seu. Naquela xícara. Você esperava com estilo, o sol da manhã iluminando a primeira leitura do dia. O pijama ainda vestido. Leva essa xícara porque a partir de hoje só beberei doses descompensadas. Não preciso de medida exata pro meu gosto passado.

Esse quarto: Você esqueceu seu perfume na estante perto da cama. Esqueceu ou deixou? Será que esqueceu pra que eu te faça uma visita em sua nova vista bonita, ou esqueceu porque quer mesmo deixar tudo pra trás? Você esqueceu pra que eu sempre me lembre de você, pode dizer. Você sabe que vou demorar meses até colocar o frasco no lixo. Dos lençóis ao odor que escapa da tampa que não fecha. Era eu que deveria ter deixado essa casa.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pessoa Oculta

Mais uma Segunda-Feira.
Mais ou menos no mesmo horário passo em frente àquele café de esquina.
Mais uma vez te vejo sentado na mesma mesa.
Mais um café, ao que parece do mesmo café, você toma. Seus cabelos encaracolados ocupam o mesmo lugar de sempre. Cadeira que dá vista pra rua. Em que será que você repara quando seus olhos atrás das lentes se cansam da luz do computador? O que será que você pensa quando para de ler esse trabalho aí? Que tipo de coisa desprende a atenção de seus dedos, digitadores frenéticos? Será que você já percebeu que toda Segunda-Feira no meio da tarde eu passo em frente ao seu lugar reservado? Eu percebi que não tem sido coincidência te ver sempre no mesmo café, na mesma cadeira, no mesmo dia da semana, na mesma hora.
Ops, alguma coisa de você eu descobri. Alguma coisa além dos cachinhos simpáticos do seu cabelo, alguma coisa além de “antes você não usava óculos”, alguma coisa além do oi inesperado nos corredores de toda semana. E você? Será que você já percebeu que toda Segunda-Feira no meio da tarde eu passo em frente ao seu lugar reservado? O que será que você descobriu de mim? Reparou que cortei os cabelos? Reparou que antes de ter mais uma vez a nuca de fora meus fios ficaram longos e até coloridos? Viu que sumi por uns meses?

Como será que é a sua Segunda-Feira? Onde será que você estava antes do café? Pra onde você vai depois? Sempre te vejo com a mesma xícara. Passo rápido, eu sei, mas é sempre a mesma xícara porque é sempre do mesmo tamanho. Você só bebe, não come? Bebe a mesma bebida? A bebida de sempre? Qualquer dia diminuo os passos e como uma torta alemã, você vai ver.

Viu? Entrei no café. Eu vi que você viu. Vi que mexeu nos cachinhos, como se tivessem caído em seus olhos, só pra vira a cabeça pro meu lado. O horário me ajuda a escolher uma mesa estrategicamente posicionada para que eu te veja por cima do conto que estou lendo. Estou realmente interessada na leitura e minha timidez deve ter te confundido. Afinal, entrei nos seus olhos quando cheguei (tanto que senti uma coisa quente em mim, confesso) e agora fico com cara escondida atrás dessas páginas. Nada que o café com leite não possa me ajudar. Você viu que eu nem tô mais com a cara escondida atrás das palavras tagarelas que leio? Viu? Notou que mudei de posição quando uma moça sentou no meio da gente? Percebeu que pedi o tamanho grande, e não o médio, só pra demorar mais em ficar aqui nesse café de esquina, brincando de olhar meu olhar no seu?

O homem do conto está trepando com a mulher do conto. Foi logo depois do primeiro beijo, um beijo meio sem jeito com carinho nas orelhas. Será que o homem do conto tem cachinhos que nem você? Será que a mulher do conto é romântica como eu? Como será que é o seu corpo? A textura, a temperatura. O toque. E a voz? Oras, foi um oi muito rápido e há muito tempo. Sabia que me lembro do seu risinho em canto de boca naquele dia? Sabia que fiquei morrendo de vergonha e nem sei se minha voz soltou o oi pra te responder?

Como será que é tirar sua roupa? Que gosto tem sua língua? Que cor tem sua pele quando fica arrepiada? Será que suas mãos são quentes? Que cheiro você tem? Será que seus lábios são bons de morder? É que eles parecem bons de morder. Mostra mais seu sorriso, ele é tão bonito.

Ela chegou e te deu um beijo. Será que alguém reparou na minha cara de decepção? Será que você notou eu tentando disfarçar?
Vocês pagam a conta depois que ela come. Ela eu sei que come.
Nem quero mais saber aonde você vai depois do café.
Mas hoje eu não comi torta alemã.

Viu, qualquer dia diminuo os passos, viu? E como uma torta alemã, você vai ver.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

3:07

O frio e a chuva colocaram a cidade para dormir. Lá fora, os carros esquecidos ao lado da calçada denunciam a falta de coragem dos moradores em gelar o nariz e as orelhas. Ao pé da lareira ela termina de ler o romance que a fez suspirar levemente os lábios, que a lembrou do belo sorriso da noite passada. Antes de dormir olha pela janela a calma do bairro, o silêncio do inverno. Aproveita essa estação para fingir ter voltado ao tempo da não luz elétrica e sobe com uma vela até o seu quarto. Cansada, cai no sono antes que a fumaça da chama apagada se afastasse da cama. Dorme um sono de pedra, nem ao menos se move. A intensidade das atividades da semana é tão presente enquanto descansa que sente sobre seu corpo um peso vivo, atento. Ao tentar se livrar dele percebe que sua imobilidade não se deve ao cansaço. Abre os olhos, preocupada. Um susto. Uma pessoa. Ao tentar entender o que acontece consegue virar a cabeça para o lado, apenas porque foi deixada. São 3:07. Em cima de seu pijama alguém prendeu seus braços e pernas em cordas de nós precisos. O olhar que a seca é ameaçador, confiante, sem remorso. Aquele olhar sorria o sangue que logo iria escorrer. Sem pressa e preocupação, como quem espera a água ferver em fogo baixo, a mão alheia lhe tampava a boca com prazer em sua expressão facial. Ao erguer a mão que segura a faca afiada, a pessoa que planejara por semanas o assassinato quase goza antecipadamente.

Um susto.

Um sonho.

Ufa. Ela abre os olhos. São 3:05, a porta range.

domingo, 25 de maio de 2014

Lenços de Papel


Levanto apenas um pouco mais cedo do que desejava. Precisava das cópias de uns capítulos. Espero a multiplicação dos textos encostando minha fome no balcão de uma padaria, uma das poucas que tem por aqui. Aproveito as padarias aos sábados, já que aos domingos elas adormecem nessa região da cidade. Como gosto de gastar meu tempo nesses lugares, durante a semana frequento os cafés pequenos e aconchegantes, mas que pelo tamanho me expulsam logo. Aliás, quase tudo adormece nesse centro aos domingos. As ruas e portas fechadas dão, então, o espaço merecido aos transeuntes que hoje não correm pelos paralelepípedos sujos e calçadas quebradas.

Descubro o conforto das mesas ao fundo do estabelecimento que visito pela primeira vez. Enquanto aguardo o queijo quente em pão francês temperado com o sabor único dos resquícios de outros sanduíches feitos na mesma chapa, ajeito os óculos que, menos querendo que precisando, voltei a usar. Procuro a página parada do conto que estou lendo. Preparo-me para treler um trecho impressionantemente divertido daquela história. Quando minha mente toma fôlego para, em minha cabeça dar voz às palavras escritas, sou tomada pelo cheiro do café com leite. Quente. Quente como pede essa manhã preguiçosa, quente como deseja quem vive a cidade agora molhada. Quase que para manter uma tradição inconsciente, queimo a ponta da língua na vontade ansiosa de esquentar meu esôfago.

Após a primeira mordida reparo finalmente na televisão. Um clássico duelo do vôlei onde me empolgo na torcida do Brasil contra a Itália. Adoro assistir vôlei. Minha atenção se divide entre o prato, a xícara a tela colorida. Acompanho cada toque, cada saque. Sou a torcedora mais animada dali. E a única. Depois de meio queijo quente no estômago e com o esôfago aquecido, percebo que o jovem senhor que se sentou à mesa um pouco atrás da minha também acompanha a partida. A impressão que tenho é que, ao contrário de mim, ele quer rapidamente o resultado final. Tão rapidamente quanto a velocidade em que engole sua empadinha. Toda a coca subiu pelo canudinho. Pronto, sou outra vez a torcedora solitária.

No intervalo entre um set e outro apanho rapidamente o livro e deleito-me mais uma vez com as mesmas páginas. A cada vez que releio, descubro um novo detalhe. Da mesma forma quando, no outro intervalo entre os sets (sim, o jogo está emocionante, meu caro!) reparo na divertida decoração da padoca. As paredes de amarelo intenso exibem flores de plástico postas em simpáticos vasinhos. Elas, por sua vez, dividem o mesmo espaço com reproduções de flores de Van Gogh. Um desafio interessante aos olhos.

Saio correndo quando Brasil e Itália seguem empatados. Eu mesma insiro o cartão na máquina. Eu mesma escolho a opção débito, digito o valor da conta e recuso minha via. Agilizei-me enquanto as mulheres atrás do balcão discutiam os últimos detalhes de uma festinha surpresa. Desejo um feliz aniversário à funcionária desconhecida, acelero meus passos para pegar o sinal verde e não ter de perder minutos do jogo parada antes da faixa de pedestres. Pego e pago a multiplicação dos textos.

Chegando em casa, peço uma televisão emprestada e sofro no último set. Um ponto para cada time a cada vez que a bola é arremessada, o que aumenta consideravelmente a quantidade de pontos necessários para se vencer. E venceram. Mais uma vez venceram. Agora, um pouco mais calma, devolvo a TV, termino de treler aquele texto e saio em busca de mais uma aventura. Desta vez, carregando lenços de papel.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas

Parece que escureceu de repente. O céu passou de azul-bebê a azul-bêbado em poucos minutos. A noite torna as luzes dos faróis contrários mais fortes e sinto como se elas invadissem minhas pupilas como feixes pontudos. Agudos.

Pontiagudos.

Mais um motivo para eu gostar do horário de verão e o principal motivo para eu detestar dirigir em rodovias durante a noite. O som calmo escolhido para a viagem, não, ele não me adormece, por ter medo de conduzir o carro em estradas bocejo de cansaço, não de sono, não, ele não me adormece, apenas acalma minha ansiedade em acelerar a velocidade, soltar o freio mão. Os acordes que saem do rádio acompanham a curva do meu pensamento que contornou a faixa amarela contínua e se lembrou de uma história:

- Você apareceu nos sonhos essa noite.
- Ah, é?
- Aham.
- E o que você sonhou?
- Então, foi meio estranho. Eu sentia que nós estávamos próximos, mas eu só te via de costas. Era uma sala de um apartamento calmo iluminada pela luz morna do sol em fim de tarde. Você vestia uma camisa branca maior que seu tamanho. Sentada no chão marrom, de frente para uma janela enorme, seu corpo se aquecia do suco gelado que tomamos. Nós conversamos algumas coisas, demos umas risadas, mas eu só te via de costas. E sonhei que soltava seu cabelo, e ficava trançando-o. Mas nunca conseguia terminar a trança. E sonhei que soltava seu cabelo, e ficava trançando-o. Mas nunca conseguia terminar a trança. E sonhei que soltava seu cabelo, e ficava trançando-o. Mas nunca conseguia terminar a trança.

Mais um pedágio. A iluminação viva que toma conta do telhado extenso alivia o latejar em meus olhos, afinal, aqui a luz não nasce apenas de pontos isolados. Sorrio para o moço que separa as moedas do troco porque gosto de sorrir. Ele é simpático e me responde um boa noite sincero. Sinto falta do seu boa noite aconchegante. Aquele que ainda não conheço, mas que me toca o rosto antes de dormir.

Percebo uma grande movimentação na outra pista. Sirenes mudas e uma leve confusão denunciam um ônibus tombado. Me espanto ao ver tamanho automóvel preso ao chão, mas após engolir o ar rapidamente e olhar para a esquerda não vejo ninguém aflito, ninguém chora. A cena do desastre parece acontecer em câmera lenta. Acho que não passou de um grande susto. Não tenho certeza. Especulo sem sucesso se havia muitos passageiros, se outro veículo se envolveu na colisão, se alguém ficou machucado, se morreu. Esses pensamentos crescem incontrolavelmente na minha cabeça, aquela cena me faz lembrar o quão frágil é a vida. Penso na minha família, que estou longe de todos e que estou sozinha. A saudade aumenta. Quando volto para a Capital, após visitá-los, a saudade aumenta. Durante alguns dias após o fim da visita ela espreme meu coração e faz suco de sangue triste em mim. Eu me desespero e balanço a cabeça repetidas vezes a fim de jogar para fora essa sensação de medo e angústia. Eu choro, mas quase, porque ao receber as lágrimas que quase caem me permito fechar os olhos por breves segundos, sempre longos quando se está na estrada, mesmo que o caminho seja essa reta a atingir o horizonte, mas me permito fechar os olhos. E mesmo assim os feixes pontudos dos faróis me pinicam. Sabe aquela lágrima que escorre sem querer denunciando a dor e percorre a eternidade do rosto até que finalmente se cala e morre na boca?




Novamente a pista à minha frente. As linhas amarelas cortadas. Eu não sei se você vai conseguir terminar essa trança um dia. Sabe aquela lágrima? Tenho pensando em cortar meu cabelo, mas tenho adiado isso também. É como fumaça de brasa que arde os olhos quando apagamos o que resta do fogo com água repentina. Com os fios longos é mais fácil segurá-los sem que escorreguem, sem que lhes escapem. Não tenho certeza.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Efeito Borboleta

Estou deitada entre lençóis amarrotados que escondem meu corpo nu do leve frio que sinto enquanto você procura a primeira peça, também amarrotada, atirada ao chão. Na madrugada do quarto, o pequeno abajur de estopa mancha de amarelo as paredes e aconchega nossa respiração ainda quente no oxigênio de corpos suados. Como sempre, tenho sono de vestir qualquer coisa e abrir a porta do corredor que não te deixa sair sem que eu destranque o caminho.


Cueca:
Você em pé me observa em silêncio. Um dos raros momentos que nos olhamos sem falar alguma coisa da vida ou da arte.

Jean-s:
Você comenta que tá bonito assim, essa luz no meu rosto com o meu corpo perdido entre as estampas repetidas dos lençóis e dos travesseiros. Eu chorei muito nesses últimos dias. A dor na minha cabeça pesou como se ela estivesse suspensa por um débil filete de nervo no pescoço. Tais mais tantos acontecimentos me fragilizaram nesses últimos dias. Tudo isso me deixou carente e eu ordeno que você me abrace mais uma vez pra, quem sabe, suprir a falta de carinho desses últimos dias. Deitados, conversamos outra coisa legal, mas é você que novamente fala mais enquanto de olhos fechados eu sinto sua pele na minha. Seu peito sem roupa e seus braços um pouco gelados de quem se aquece enquanto gesticula com sérias caretas e algumas risadas empolgadas. O dia quer amanhecer e o mínimo fio de sol nos é proibido.

Camisa:
Você comenta que sabe fazer um ótimo café da manhã e finge que isso não é um convite quando sou direta em perguntar. Eu suspiro cansada da semana, dos dilemas e das cobranças e porque sei que se aproxima o minuto que me separa de continuar pelada para em seguida dormir.

Meias:
Minha vez de procurar as peças perdidas, postas pra lá enquanto você buscava a minha boca e eu a sua.

Calçados:
Meu cabelo embaraçado. Meus seios arrepiados. Meus pés descalços.

Jaqueta:
Você lê um título técnico amontoado entre outros e literaturas na escrivaninha, e eu não queria ter me lembrado de que a segunda-feira não se atrasará em chegar para haver mais tempo de aliviar meu medo.

Seu traje está completo. Com roupa você fica mais sério. Te guio pelo caminho que você já conhece. Você some nas minhas costas e eu nas suas. Todo o trabalho em levantar da cama, me vestir, caminhar até um foco de luz para evitar que você tropece, abrir uma porta, a outra, trancar essa porta, olhar rapidamente para trás, trancar mais esta, tatear no escuro o prego das chaves e voltar para o meu quarto, todo esse trabalho espanta meu sono.
Folheio agora mais um livro sem dedicatória.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Uma e meia

- Tá na fila aí, véi?
- Tô.
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- Porra, que demora.
- Ná, o maluco entrô aí faz uma cara. Deve tá cherano.
- Ou tá cherano ou tá cagano.
- Hahaha, pode crê.
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- Pô, finalmente.
- E ele dexô uma bera ali. Se o próximo não pegar, ganhei uma cerveja.
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- Pô amigo, agiliza aí que eu tô me mijando.
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- E ganhei uma cerveja!