Mostrando postagens com marcador Contos Miúdos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos Miúdos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Romã

Vestindo um pano azul e um chinelo sem cor, caminhei pelas ruas depois do almoço que não almocei. Dormiam as flores a sesta. Dormiam as folhas também. Algumas, de tão sonolentas, caíram das árvores e bordaram o asfalto, a calçada. Uma pétala colorida caiu no meu cabelo. Agora tenho fios cor-de-rosa. E tem um fio que me parte ao meio. Tem esse frio nos meus seios. Tenho filhos que não nasceram.

Espero pelo ônibus que não vou subir. O banquinho do ponto é velho. Tomo cuidado com as ferpas que querem escapar. Reparo que o portão da casa da frente está mais branco. Isso indica que, apesar das cortinas sempre fechadas, tem gente morando ali. Tem uma cadeira na varanda e um tapete feito à mão. Tem uma árvore na frente e deve ter chá no meio da tarde. Vai ter esse cheiro de pão quando o sol for descansar. Eu tenho as unhas com vermelho pela metade e tenho essa dor, essa incerteza. Carrego esse medo, a minha angústia. Meus olhos murcharam e dormi de bruços ali mesmo. Esqueci das ferpas que queriam fugir.

Acordei com todas elas no meu peito.

Vestindo um pano azul com bolinhas vermelhas me sentei no banco velho. Eu tirava as ferpas e ia sangrando, sangrei tanto que agora minhas unhas encontram nenhuma falha no esmalte. Fui derramando até o outro lado da rua. Me convidei pra entrar. Sujei o piso branco da casa de portão mais branco. Manchei o estofado da cadeira. Melei a faca com o meu sangue. Pareceu que comíamos pão de beterraba. A mesa do café da tarde não tinha café, mas comi biscoito de nata e bebi chá de hibisco. Subi na mesa e dormi novamente. Deixei a cozinha vermelha e fui caminhando por onde nunca tinha ido, mas por onde sei que vais, pra onde nunca cheguei e nem sei se vou chegar. Caminho por um convite confuso e nebuloso, mas que aceitei.



quinta-feira, 2 de julho de 2015

Liquidifica-dor




O solo de piano que ouvi nessa noite ainda ecoa na minha cabeça quando, ao me encasular num grande cachecol, caminho até a porta. A umidade do ar denuncia a chuva antes mesmo que eu possa enxergar a rua encharcada. Daqui de dentro não consigo observar se a chuva persiste. Na soleira da porta procuro um poste. Pisco em tempo prolongado um dos olhos e tapo com uma das mãos a luz que, apesar de não ser forte, me cega. Agora sim. Ainda chove. Uma chuva que cai com personalidade, sem pressa. É uma chuva-feiticeira. Parece carinhosa, mas te molha até a meia, até a calcinha. A axila. Respiro. Eu, claro, não trouxe um guarda-chuva.

Minha casa não está longe e eu realmente queria aproveitar essa caminhada. Passar pelas árvores de troncos tortos, pela casa escondida e pela casa viva, a que sinto vontade de conhecer. Ao chegar na quadra desta que tem o muro baixo troco o ritmo dos meus passos. De quatro tempos para dois. pá-pá-pá-pá, pá-pá-pá-pá, pá----pá, pá----pá. Desacelero. Estaciono. Finjo amarrar os cadarços ou tirar uma pedra da sapatilha. Repito esse ritual na frente da casa-viva, sempre, sem pressa, assim como a chuva-feiticeira. Mas eu sou mulher-transparente. Basta pôr reparo que se apercebe. Meu cadarço sempre desamarra em frente a mesma casa. Eu propositalmente tenho muita paciência em resolver meu pequeno problema. Quanto mais paciência, mais tempo.

Um dia me ofereço pra um café.

Essa chuva é feiticeira mesmo. Sussurra que está tudo bem, me seduz pra ela. Quase me ganha. A tosse que dói meu pulmão me convence a pegar um táxi e me protege da água gelada que certamente intensificaria minha gripe. A noite não vai seguir como planejei. A tosse me salvou da enfermidade, mas me privou da espontaneidade. Vou passar pelos detalhes do meu caminho sem poder admirá-los. Preciso indicar a direção: esquerda, esquerda, direita, esquerda, no primeiro portão à direita, por favor. Obrigada. Débito. Senha incorreta? Ops, cartão errado. Boa noite. Bom trabalho.

O prédio é baixo, mas escolho o elevador. Encontro um conhecido que esbarra em mim, mas não se desculpa. Tampouco me cumprimenta. Me sinto invisível e no mesmo momento uma peça da roupa que visto cai. Deixo no chão. Durmo com os pés gelados e com o apito que nasceu no meu ouvido na última semana. Acordo com a visita surpresa de uma amiga que quis preparar o almoço. Outra peça se desprende de mim. Conheço alguém. Ganho um abraço, um carinho, e no meio do beijo as roupas que me restavam no corpo perdem a costura. Estou nua. Sou mulher-transparente. Durmo com o apito que nasceu no meu ouvido na última semana e com uns pés esquentando os meus. Sou tomada por tamanha calma que meus bronquíolos relaxam.


Na manhã seguinte posso dormir mais que ele. Vejo que tem roupas. As que me restaram estão desmanchadas, não conseguem me cobrir. Sem panos ou tecidos nada mais é possível. Caminho nua pela cidade. Mas tudo bem, já sou mulher-transparente e o segredo que tentei esconder não consegui. Com os bronquíolos relaxados respirei intenso no abraço que ganhei. Engoli um bicho. Um bicho sem desenho definido ou nome escolhido. Um bicho que todo mundo vê. Ele anda dentro de mim e encontra cada célula do meu corpo. É um bicho esquisito que sem fazer cócegas me faz rir e sem contar histórias de terror me amedronta. Mulher-transparente que sou olho pra esse bicho em frente ao espelho. Tento agarrá-lo, mas ele é mais rápido e não se aquieta. De tanto me fazer seu caminho fiquei pisoteada. Mas eita bicho intrigante, não é que voa também? De tanto me fazer seu ar, virei nuvem leve. Agora minhas lágrimas, as de leveza e as de pisoteio, não escorrem dos olhos, mas caem do céu.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Descafeinada

Aceitou o convite para ir em um café que não gosta. Não por não gostar de café, mas além de não gostar de café aquele é caro para a qualidade que não tem. Os sofás são os primeiros a receber visita, estão sempre cheios. As mesas com quatro cadeiras não têm suporte para oito pés. Aparência mentirosa. Há uma constante dança descoreografada e sem ritmo entre pares diferentes de calçados. Tênis, sapatilhas, o sapato vermelho. Em uma das trocas de posição, bonito esse sapato. Obrigada. O cheiro do ambiente é bom e porque sim. Cheiro de café só é ruim se o pó queima. Conclui ao observar bocas em movimentos de fala que cheiro de café coado é melhor. Conclui logo em seguida que sua preferência se deve à sua cidade natal. Lá sempre se bebeu café coado. Longe de ser uma metrópole, mas maior que os centro urbanos mais próximos, Cornélio Procópio tem uma fábrica de café. Sempre teve. Existiu antes da cidade existir. Existiu primeiro.

Quando ela ainda brincava de amarelinha na rua sem saída, a fábrica ficava longe da cidade, no caminho de estrada. A realidade é que a fábrica continua no mesmo lugar, só que mais perto. Esse fato se deve a não se sabe qual crescimento: o da cidade ou o da menina. Criança que era detestava quando os ventos sopravam da fábrica em direção sua casa, a essência do odor do pó marrom vinha junto e impregnava o ar. Adulta que se tornou ama quando os ventos sopram da fábrica em direção à sua casa de menina, o cheiro de café se espalha pela cidade justo ao final da tarde e ao visitá-la, as vezes ganha esse prazer. Dizem que nosso paladar se modifica conforme crescemos. Eu gostava tanto doce, tanto! Tanto chocolate pirulito bala caramelo chiclete jujuba, mentira jujuba não, nunca gostei de jujuba, maria-mole brigadeiro beijinho cajuzinho. Detestava rúcula, para ela tinha gosto de terra. Tenho certeza que há uma explicação biológica barra evolucionista barra de preservação ou instinto barra outros termos que explica mesmo, realmente, de modo convincente a mudança do nosso paladar. Mas Ciência, me desculpe... não consigo deixar de me perguntar: será que não passei a gostar de rúcula por me acostumar com o amargor da vida e então aceitá-lo na minha boca?


O assunto se tornou tão enérgico que o casal descolado que se sentou há pouco na mesa ao lado parou de conversar para ouvir. Agora eles se falam por olhares concordando ou não com o que dizemos. Carioca. Seu amigo pediu um carioca, por favor. Carioca é café coado. Então não devia ter esse apelido. O mais apropriado seria alguma coisa entre procopense e cornélinho. A fábrica de café existiu lá primeiro. A verdade é que estou com sono e falo pouco. Até tinha um comentário muito bom a tecer em dado momento, mas tinha em maior escala a preguiça de falar. A chuva a chama de volta pra casa. É que assuntos da alma salgaram as bebidas e ela não está para angústias hoje. Aquele choro que dói bem aqui, sabe? É, bem aí! Deixa, deixa a cidade ser a atriz principal. Ela tá tão bonita nesse clima outonal. Tão sincera. Pra sair de casa em dias assim só a necessidade ou a sinceridade. Amor de outono, amor de inverno não dura só um verão. Eu sei Ciência, sei que as estações duram cada uma o mesmo período, mas me desculpe. É que tem um tempo dentro da gente que é outro, tempo esse que você nunca vai entender. Assim como eu não entendo estatística e química. Assim como eu não entendo a fome, a fúria, a violência, a miséria, a desigualdade. Assim como eu não entendo os motivos do abandono que sofri. Não entendo porque ele se despediu com um até logo e não voltou. Me deixou, me descafeinou. Eu não entendo Ciência, por que ele não fica mais um beijo? Por que ele não fica mais uma vida? Assim como não entendo esse silêncio, Ciência, você não vai conseguir entender o tempo esticado que tô sentindo dentro de mim.



Foto: Elisa Ribeiro

sábado, 7 de março de 2015

Convite

Estávamos em um hotel. O lugar era grande e diferente do que estamos habituados. Hospedados em outro quarto, apesar de estarmos no nosso bairro. Nós saímos e bebemos um pouco.

Tá vendo aquela casa? É de um arquiteto aqui da cidade. É uma casa dos anos cinquenta que foi inteira restaurada, tem um ateliê incrível lá dentro. É que o marido do arquiteto é escultor. Não, nunca entrei lá. Um menino que trabalha comigo, é, menino, ele sempre conta isso quando passamos por aqui e aí tô te contado agora.

O dia já dormia há horas.

Essa rua é tão bonita. Eu gosto quando as árvores se encontram no topo, no meio, ali no alto. É que essas árvores são casais apaixonados, mas há muito tempo alguém as separou com esse asfalto no meio. Aí com saudade umas das outras elas foram crescendo pra ficar pertinho assim. O que, essa história? Ah, é minha mesmo. Inventei esses dias, mas é tudo verdade.

Tinha um karaokê no caminho pro hotel e a gente resolve entrar. Cantamos clássicos da nossa adolescência e uma música de amor. A gente ainda não sabe se é amor. Eu acho que é cuidado. O gelo seco deixa o ambiente ainda mais escuro. Um escuro bom, escuro sedutor. Escuro branco e te perdi na fumaça. Ali está você. Sorrindo com os olhos fechados aspirando profundamente.

Na volta, você apertou o último andar, mas estávamos no terceiro. Você ria como quando um bebê descobre os sons que a boca pode fazer. Ríamos juntos.

meus olhos fechados
estou aberta
encosta tua boca aqui devagar. Gosto quando tua franja escorrega no meu seio quando você me lambe uma orelha e só o lado esquerdo do meu corpo arrepia gosto quando cafuné.
minha pele excitada
sua língua atuante
fios dos cabelos entre os dedos
respira assim na minha nuca. Gosto quando tua mão me surpreende quando teu corpo quente assusta o meu mais frio gosto quando carinho.

Deixamos a janela aberta. Você me confessa sua primeira paixão: a trapezista do circo. Eu morava no sítio e em outubro dos meus seis anos de idade o circo visitou a cidadezinha próxima. Meus pais me levaram, eu e minha irmã. Fiquei encantado. Ela foi anunciada como o principal show da noite. Ou eu que achei o show dela o mais belo. Ela entrou sem que ninguém pudesse ver porque soltaram muito gelo seco no ar. O cheiro do gelo seco. Eu me lembro do cheiro do gelo seco. O branco foi sumindo e ela aparecendo. Apareceu bonita com um maiô cor-de-rosa cheio de glitter. Subiu com elegância até o teto de lona e se soltou com maestria. Levei as mãos à boca num suspiro de medo. Pensei que ela, tão linda, fosse cair. Aquele dia aprendi que a gente pode voar.

Dormimos entre os lençóis e a lua. Acordo com a brisa da manhã que voa a cortina até que ela encosta em meus pés. A cama fica perto da janela e sinto o frio calmo da primavera. O vestido está longe e não encontro minha calcinha. Me aqueço com sua camiseta e me aconchego na sua silhueta.

Eu viveria uma sucessão de domingos aqui. Quando os domingos vêm acompanhados, eles são bons. São domingos dourados.
me aperta assim devagar. Gosto quando me aperta assim devagar. Gosto quando fica.

domingo, 3 de agosto de 2014

Frete

Louças na pia: Noite atípica de inverno. Em meio à estação mais gelada do ano, o vento que fez cócegas em nosso rosto era morno. O céu parecia de verão: forte azul e nuvens claras. No jardim de casa as garrafas vazias e os pratos sujos da noite anterior. E sinto o cheiro do seu tempero.

Mais sentimental: Hoje é domingo e se este dia da semana possui em sua presença uma sensação de fim e recomeço, nesta noite ela se tornou mais forte. Eu sei que você ainda continua na mesma cidade, em bairro não distante. Acontece que te ajudar com as roupas e os livros, os mesmos que pintaram o quadro da nossa história, fez esse domingo parecer mais estranho que os outros.

Doses exageradas: Aquela xícara que eu gostava, branca e preta, a pequena que me servia na medida exata de meu gosto. Pode levar. Leva porque eu me lembro você esperando eu terminar meu café pra beber o seu. Naquela xícara. Você esperava com estilo, o sol da manhã iluminando a primeira leitura do dia. O pijama ainda vestido. Leva essa xícara porque a partir de hoje só beberei doses descompensadas. Não preciso de medida exata pro meu gosto passado.

Esse quarto: Você esqueceu seu perfume na estante perto da cama. Esqueceu ou deixou? Será que esqueceu pra que eu te faça uma visita em sua nova vista bonita, ou esqueceu porque quer mesmo deixar tudo pra trás? Você esqueceu pra que eu sempre me lembre de você, pode dizer. Você sabe que vou demorar meses até colocar o frasco no lixo. Dos lençóis ao odor que escapa da tampa que não fecha. Era eu que deveria ter deixado essa casa.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

3:07

O frio e a chuva colocaram a cidade para dormir. Lá fora, os carros esquecidos ao lado da calçada denunciam a falta de coragem dos moradores em gelar o nariz e as orelhas. Ao pé da lareira ela termina de ler o romance que a fez suspirar levemente os lábios, que a lembrou do belo sorriso da noite passada. Antes de dormir olha pela janela a calma do bairro, o silêncio do inverno. Aproveita essa estação para fingir ter voltado ao tempo da não luz elétrica e sobe com uma vela até o seu quarto. Cansada, cai no sono antes que a fumaça da chama apagada se afastasse da cama. Dorme um sono de pedra, nem ao menos se move. A intensidade das atividades da semana é tão presente enquanto descansa que sente sobre seu corpo um peso vivo, atento. Ao tentar se livrar dele percebe que sua imobilidade não se deve ao cansaço. Abre os olhos, preocupada. Um susto. Uma pessoa. Ao tentar entender o que acontece consegue virar a cabeça para o lado, apenas porque foi deixada. São 3:07. Em cima de seu pijama alguém prendeu seus braços e pernas em cordas de nós precisos. O olhar que a seca é ameaçador, confiante, sem remorso. Aquele olhar sorria o sangue que logo iria escorrer. Sem pressa e preocupação, como quem espera a água ferver em fogo baixo, a mão alheia lhe tampava a boca com prazer em sua expressão facial. Ao erguer a mão que segura a faca afiada, a pessoa que planejara por semanas o assassinato quase goza antecipadamente.

Um susto.

Um sonho.

Ufa. Ela abre os olhos. São 3:05, a porta range.

domingo, 25 de maio de 2014

Lenços de Papel


Levanto apenas um pouco mais cedo do que desejava. Precisava das cópias de uns capítulos. Espero a multiplicação dos textos encostando minha fome no balcão de uma padaria, uma das poucas que tem por aqui. Aproveito as padarias aos sábados, já que aos domingos elas adormecem nessa região da cidade. Como gosto de gastar meu tempo nesses lugares, durante a semana frequento os cafés pequenos e aconchegantes, mas que pelo tamanho me expulsam logo. Aliás, quase tudo adormece nesse centro aos domingos. As ruas e portas fechadas dão, então, o espaço merecido aos transeuntes que hoje não correm pelos paralelepípedos sujos e calçadas quebradas.

Descubro o conforto das mesas ao fundo do estabelecimento que visito pela primeira vez. Enquanto aguardo o queijo quente em pão francês temperado com o sabor único dos resquícios de outros sanduíches feitos na mesma chapa, ajeito os óculos que, menos querendo que precisando, voltei a usar. Procuro a página parada do conto que estou lendo. Preparo-me para treler um trecho impressionantemente divertido daquela história. Quando minha mente toma fôlego para, em minha cabeça dar voz às palavras escritas, sou tomada pelo cheiro do café com leite. Quente. Quente como pede essa manhã preguiçosa, quente como deseja quem vive a cidade agora molhada. Quase que para manter uma tradição inconsciente, queimo a ponta da língua na vontade ansiosa de esquentar meu esôfago.

Após a primeira mordida reparo finalmente na televisão. Um clássico duelo do vôlei onde me empolgo na torcida do Brasil contra a Itália. Adoro assistir vôlei. Minha atenção se divide entre o prato, a xícara a tela colorida. Acompanho cada toque, cada saque. Sou a torcedora mais animada dali. E a única. Depois de meio queijo quente no estômago e com o esôfago aquecido, percebo que o jovem senhor que se sentou à mesa um pouco atrás da minha também acompanha a partida. A impressão que tenho é que, ao contrário de mim, ele quer rapidamente o resultado final. Tão rapidamente quanto a velocidade em que engole sua empadinha. Toda a coca subiu pelo canudinho. Pronto, sou outra vez a torcedora solitária.

No intervalo entre um set e outro apanho rapidamente o livro e deleito-me mais uma vez com as mesmas páginas. A cada vez que releio, descubro um novo detalhe. Da mesma forma quando, no outro intervalo entre os sets (sim, o jogo está emocionante, meu caro!) reparo na divertida decoração da padoca. As paredes de amarelo intenso exibem flores de plástico postas em simpáticos vasinhos. Elas, por sua vez, dividem o mesmo espaço com reproduções de flores de Van Gogh. Um desafio interessante aos olhos.

Saio correndo quando Brasil e Itália seguem empatados. Eu mesma insiro o cartão na máquina. Eu mesma escolho a opção débito, digito o valor da conta e recuso minha via. Agilizei-me enquanto as mulheres atrás do balcão discutiam os últimos detalhes de uma festinha surpresa. Desejo um feliz aniversário à funcionária desconhecida, acelero meus passos para pegar o sinal verde e não ter de perder minutos do jogo parada antes da faixa de pedestres. Pego e pago a multiplicação dos textos.

Chegando em casa, peço uma televisão emprestada e sofro no último set. Um ponto para cada time a cada vez que a bola é arremessada, o que aumenta consideravelmente a quantidade de pontos necessários para se vencer. E venceram. Mais uma vez venceram. Agora, um pouco mais calma, devolvo a TV, termino de treler aquele texto e saio em busca de mais uma aventura. Desta vez, carregando lenços de papel.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Efeito Borboleta

Estou deitada entre lençóis amarrotados que escondem meu corpo nu do leve frio que sinto enquanto você procura a primeira peça, também amarrotada, atirada ao chão. Na madrugada do quarto, o pequeno abajur de estopa mancha de amarelo as paredes e aconchega nossa respiração ainda quente no oxigênio de corpos suados. Como sempre, tenho sono de vestir qualquer coisa e abrir a porta do corredor que não te deixa sair sem que eu destranque o caminho.


Cueca:
Você em pé me observa em silêncio. Um dos raros momentos que nos olhamos sem falar alguma coisa da vida ou da arte.

Jean-s:
Você comenta que tá bonito assim, essa luz no meu rosto com o meu corpo perdido entre as estampas repetidas dos lençóis e dos travesseiros. Eu chorei muito nesses últimos dias. A dor na minha cabeça pesou como se ela estivesse suspensa por um débil filete de nervo no pescoço. Tais mais tantos acontecimentos me fragilizaram nesses últimos dias. Tudo isso me deixou carente e eu ordeno que você me abrace mais uma vez pra, quem sabe, suprir a falta de carinho desses últimos dias. Deitados, conversamos outra coisa legal, mas é você que novamente fala mais enquanto de olhos fechados eu sinto sua pele na minha. Seu peito sem roupa e seus braços um pouco gelados de quem se aquece enquanto gesticula com sérias caretas e algumas risadas empolgadas. O dia quer amanhecer e o mínimo fio de sol nos é proibido.

Camisa:
Você comenta que sabe fazer um ótimo café da manhã e finge que isso não é um convite quando sou direta em perguntar. Eu suspiro cansada da semana, dos dilemas e das cobranças e porque sei que se aproxima o minuto que me separa de continuar pelada para em seguida dormir.

Meias:
Minha vez de procurar as peças perdidas, postas pra lá enquanto você buscava a minha boca e eu a sua.

Calçados:
Meu cabelo embaraçado. Meus seios arrepiados. Meus pés descalços.

Jaqueta:
Você lê um título técnico amontoado entre outros e literaturas na escrivaninha, e eu não queria ter me lembrado de que a segunda-feira não se atrasará em chegar para haver mais tempo de aliviar meu medo.

Seu traje está completo. Com roupa você fica mais sério. Te guio pelo caminho que você já conhece. Você some nas minhas costas e eu nas suas. Todo o trabalho em levantar da cama, me vestir, caminhar até um foco de luz para evitar que você tropece, abrir uma porta, a outra, trancar essa porta, olhar rapidamente para trás, trancar mais esta, tatear no escuro o prego das chaves e voltar para o meu quarto, todo esse trabalho espanta meu sono.
Folheio agora mais um livro sem dedicatória.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Uma e meia

- Tá na fila aí, véi?
- Tô.
.
.
.
- Porra, que demora.
- Ná, o maluco entrô aí faz uma cara. Deve tá cherano.
- Ou tá cherano ou tá cagano.
- Hahaha, pode crê.
.
.
- Pô, finalmente.
- E ele dexô uma bera ali. Se o próximo não pegar, ganhei uma cerveja.
.
.
- Pô amigo, agiliza aí que eu tô me mijando.
.
- E ganhei uma cerveja!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Quase nua

Foto: Álvaro Sánchez-Montañés

Foto: Álvaro Sánchez-Montañés



Admiro e confesso que tenho um pouco de inveja das pessoas que conseguem falar de si sem preocupações. Acho que a inveja tem em si, mesmo que a gente não queira e geralmente a gente não quer, um pouco de admiração. Afinal, só se inveja algo que se deseja: seja a beleza natural da vizinha que, claro, tem a grama mais verde, seja o charme daquele cara esquisito, a inteligência daquela puta jornalista ou até mesmo as saias da mesma jornalista. E, viu só? Estou refletindo sobre a admiração contida na inveja e não estou falando de mim. Talvez não diretamente.

Quando deixei a auto cobrança, a vergonha, a insegurança e, óbvio, o medo de lado e resolvi criar esse blog pra postar meus contos, mini-contos, cenas que vi-vi, enfim, meus dilúvios literários, coloquei o seguinte texto na descrição: “Eu tô ligada no que está desligado. Me agradam os detalhes. Me apetecem as atitudes singelas. Eu falo muito pouco de mim, porém me exponho: delicadamente na vida, escancaradamente na escrita. Mas não confie em todas”. Posso dizer que quase dois anos (!) depois de formular essas frases ainda sei pouco de mim, muito mais que um dia soube, mas pouco. E nesse momento sempre fico com a dúvida: será que sei tão pouco mesmo sobre mim mesma ou será que é receio em aceitar que eu sou assim, assim, assim?, (como diria a Tulipa). Será que é a auto cobrança e a insegurança outra vez e mais que isso, eu mesma me negligenciando e diminuindo? De novo. De novo?

- E se você pudesse desejar alguma coisa agora? O que seria? Ele me perguntou.
- Eu desejo saber mais sobre mim mesma, me conhecer melhor.
- Sério? Nossa!
- É, por que?
- Porque geralmente as pessoas tendem a achar que se conhecem muito bem.

Há alguns bons anos eu faço terapia ou análise. Aliás, essas terminologias podem causar brigas entre psicólogos. Alguns psicanalistas, e vejam estou dizendo alguns, tendem a achar que terapia é uma coisa fofa com a única serventia de consolar, e que a análise, oh, essa sim, é algo mais profundo em que você pode realmente oferecer ao sujeito possibilidades de raciocinar e entender sua existência. Sabe aquele papo da contaminação dos termos? Pois bem! Tá contaminado, tá tudo contaminado! A minha opção teórica dentro da Psicologia não se utiliza do termo “análise”, geralmente usa-se “terapia” e me irritam os olhos tortos que acham que só a Psicanálise é que se propõe realmente a analisar as escolhas e a subjetividade das pessoas. Existem posturas diferentes porque são profissionais e pessoas diferentes. Obviamente as linhas teóricas influenciam no olhar que se tem para a pessoa sentada (deitada, agitada) à sua frente e ainda bem que influenciam! Mas o fato é que para que a Psicologia possa acontecer enquanto um sincero trabalho há variados fatores importantes de influência, para citar alguns: vínculo, aceitação, empatia (e não simpatia). Os termos teóricos, então, são apenas termos teóricos quando o verdadeiro fazer da Psicologia acontece. E quando isso acontece, ah meus caros, é lindo! E sofrido. Mas é bonito!

Mas então, há uns anos eu faço terapia/análise e nesse espaço que, supostamente, é pra ser apenas meu eu demorei muito pra falar de mim. Muito. E aquele papo de me expor escancaradamente na escrita não é de todo verdade. Inclusive essa afirmação já me ressuscitou alguns ex-amores com a estima alta demais e uns enganos e uma desilusão que não quis causar. Acontece que eu me aproveito, desculpa, de momentos e olhares pra ter o que acho serem umas boas ideias. Tenho contos que começaram a ser escritos numa paixão de verão, mas que só foram encerrados no amor do inverno seguinte. E os amores? Ah, os amores difíceis!

E sabe o que mais é difícil? Minha indecisão e minhas trinta e sete vontades ao mesmo tempo. Há quem diga ser coisa de libriano. É um exercício mental extenuante decidir entre o bombom de maracujá ou de beijinho, entre tomar cerveja de trigo ou avelã. Ah, ok, eu também gosto de dar ênfase no que falo até porque a última dúvida não é tão sofrida e afinal, eu sempre acabo tomando das duas cervejas. Minha ênfase e meu excesso de expressão já assustou algumas pessoas e acabou com relacionamentos. É preciso me conter. E a indecisão, no caso da cerveja, se apresenta apenas em escolher qual será o primeiro sabor e qual vai morrer na boca.

Outra coisa difícil relacionada às minhas vontades e indecisões é o desejo de morar sozinha. Além de me desesperar sem saber quem-vai-matar-a-barata-parada-no-corredor-e-agora-pra-fazer-xixi? eu não sei se suportaria ficar tanto tempo sozinha. Eu morei sozinha por seis meses e foram os piores seis meses de moradia da minha vida. Eu passava os fins de semana sentada numa poltrona grande e nada fazia. O outro me movimenta. Você deve estar se perguntando se... relaxa, eu mato sua curiosidade. Sim, eu já fiquei fins de semanas inteiros sem tomar banho ou escovar os dentes. Apesar de hoje lidar de maneira diferente com a solidão ainda sinto receio em tomar essa decisão. Eu gosto de ter com quem conversar quando chego em casa. Eu gosto de, as vezes, ter gente fazendo barulho na casa. Mas também não gosto de todos os tipos de barulho. Tenha uma conversa interessante e não, por favor, não fale alto. E tenha agradáveis preferências musicais, isso é importante.

Uma coisa eu aprecio muito em estar sozinha: cinema. E veja, não é ir ao cinema ou sair do cinema sozinha, mas assistir um filme sozinha no cinema. De preferência com o cinema vazio sem barulho de pipoca mastigada e latas de refrigerante sendo abertas. Comentários durante o filme só os essenciais e que compõe. A apreciação em ver um filme sozinha no cinema quase se estende para a minha casa ou casa de amigos. Se o filme for bom e rico em detalhes ou se a sonoplastia parecer ausente nos momentos bem pensados de silêncio não fale, não fale não fale não fale. Confesso, quando o filme me toca muito é difícil eu me conter. Não em palavras, mas em respirações e sons estranhos que saem da minha boca em harmonia com a sessão de gestos expressivos que me seguro pra não fazer quando estou acompanhada.

Mas então, eu admiro e confesso que tenho um pouco de inveja das pessoas que conseguem falar de si sem preocupações. Entende porque eu pedi aquele dia pra você começar pelas perguntas concretas? Eu também as acho sem-graça. Sem tempero, sem tropeço, sem tesão. Sem aventura, sem textura, sem emoção. Sem desafio, sem desvio, sem extravio. Sem simpatia, sem alergia, sem agonia. Sem sinceridade, sem instabilidade, sem ambuiguidade. Sem sedução, sem complicação, sem elucubração. Sem dúvida, sem amor, sem rubor.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O bicho que Deus é

- Olha que linda essa mesquita!
- Sim, é linda! Cheia de cores e com essa luz bonita.
- Será que dá pra entrar?
- Até dá, mas não agora que é noite e tá fechada.
- Mas deveria estar aberto porque Deus não dorme. As pessoas podem rezar a hora que quiserem.
Gargalhadas da terceira pessoa que caminhava conosco.
- Mas Deus deve dormir porque ele descansou no último dia.
- Mas todo mundo vai à missa aos Domingos.
- Só que o último dia é Sábado, baby!
- Ah, sim. É minha religiosidade falando. De qualquer forma, acho que Deus dorme de olho aberto. Há muitas pessoas nessa humanidade pra ele ouvir, ajudar, se irritar...
- É, Deus deve dormir de olho aberto.
- Se Deus dorme de olho aberto, Deus dorme de olho aberto! Logo, ele é um peixe.

Fim. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Cidade natal

A banda é composta por eu, Fernando e outro Fernando. E nós ensaiamos por anos para estar aqui hoje neste tablado de madeira com cortinas coloridas de chita. Para estar aqui hoje tocando Jazz para a garota a escrever anotações iluminada de amarelo.
Mentira. Nós nunca ensaiamos. Nos encontramos ali no bar abaixo do ponto turístico principal dessa cidade e escolhemos interagir por meio de baquetas, palhetas, cordas, notas, baquetas, palhetas, cordas, notas, ritmos e partituras não.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

073

Eu desci. Desci do ônibus. Desci do ônibus sem saber onde estava. Desci do ônibus num ponto desconhecido embaixo de um viaduto. Primeiro quiseram que eu pagasse por um programa. Segundo, acharam que eu é que daria minha bocetinha por dinheiro. E eu só queria correr pro ponto de ônibus de onde vim e onde te deixei chorando.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Joana e os olhos raivosos

Joana agarrou o lápis com precisão. A ponta de grafite já não estava na espessura ideal para finalizar o risco fino do desenho. O detalhe da íris colorida em preto e branco daqueles olhos exigia destreza. E um lápis bem afiado. Joana apanhou com firmeza o estilete.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Expresso

Dois, por favor.
- Eu tô quase terminando o artigo.
- Falta muito?
- Não, só colocar nas normas, aquela chatice toda.
- Mais trabalho braçal que intelectual.
- Com licença.
- Ah, obrigada.
- Você?
- Eu?
-Não, ela.
- Ah, claro. Desculpe.
- Nada, que isso.
- Que que tem eu?
- Como tá lá na sua casa?
- Uma droga. Cada vez pior. A gente nem se fala direito, eu tô no limite. Nem parece que moro com alguém, a gente não compartilha mais nada. Nenhum sabe o que tá acontecendo direito na vida do outro.
- Nossa, não deve ser fácil mesmo.
- E não é. Só que eu fico tão envolvida com outra coisas também, com a minha produção que deixei a situação chegar no insuportável.
.


-Me falta coragem.

- E quando você vai falar?





- Meu café. Acabou.

- É, o meu também. E já deu minha hora.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma historinha


Sempre que o oi casual vinha acompanhado, e ele sempre vem, daquelas duas miúdas palavras inofensivas seguidas de um ponto curvado pra eu responder sim e você, um calo no meu pé crescia.
Sempre que o oi casual vinha acompanhado, e ele sempre vem, daquelas duas miúdas palavras inofensivas seguidas de um ponto curvado pra eu responder sim e você, eu respondia só o sim pra não ser cruel e devolver a pergunta mais perturbadora ao meu interlocutor.
Sempre que o oi casual vinha acompanhado, e ele sempre vem, daquelas duas miúdas palavras inofensivas seguidas de um ponto curvado pra eu responder qualquer coisa que seja porque não faz diferença para o meu interlocutor, meu óculos embaçava.
De óculos embaçado e calo no pé eu caminho mancando e tropeçando nos pequenos paralelepípedos fora do lugar.
Até hoje.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Uma mancha de caneta no meu peito

Aconteceu de nos beijarmos um dia.
 
 
 
Você esqueceu seu cheiro no meu travesseiro e eu já nem me lembro quando deixei você entrar aqui. Agora você está aqui, mesmo quando eu quero dormir sozinha.
Da próxima vez nós vamos pra sua casa e será a minha vez de esquecer. Uma meia calça de verão, um perfume no banheiro. Meu batom vermelho bem em cima da sua cama. Um coração desenhado no vapor do chuveiro. Minha citação favorita no seu caderno de anotações e um desenho que gosto de um artista que gosto na tela do seu computador. Meu desastre deixou cair uma gota de esmalte no seu lençol, desculpa. Em compensação desci para o reciclável todas as garrafas do nosso fim de semana. Eu esqueci meus discos aí, posso passar pra pegar? Eu quis esquecer meus discos aí pra perguntar se posso passar pra pegar. Passei na frente de um supermercado e uma garrafa de vinho pulou na minha bolsa, vamos beber?
 
Da próxima vez nós vamos pra sua casa e será a minha vez de esquecer. A calcinha que você me tirou ainda no corredor. Um chiclete mascado na luz do seu abajur. Estorou. Desculpa. Vou deixar o meu cheiro na camiseta da sua banda favorita. Mentira, você nem consegue escolher apenas uma banda. É uma pergunta injusta, eu sei. Ok, não faço mais. Não faço mais essa pergunta sobre qual é a sua banda favorita. Não faço mais aquela salada que você não gosta. Não falo outra vez sobre como prefiro o cinema vazio. Nunca mais corto as unhas em cima da cama, nem deixo meus sapatos no meio do quarto. Não chego de surpresa. Não te acordo com suspiro. Não coloco a minha língua na sua orelha. Nunca mais cobro aquela visita.
 
Da próxima vez nós vamos para a sua casa e será a minha vez de esquecer. As anotações de papel essenciais para o artigo que estou escrevendo, droga! Meus brincos no seu livro de cabeceira. Meu colar de envelope entre os últimos CD's que escutamos. O carregador do celular. Minha bagunça nos frascos do seu banheiro. Meu beijo colorido no seu pescoço. Meu rascunho entre os seus.
 
 
Da próxima vez nós vamos para a sua casa e será a minha vez de te esquecer.
 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Artura

Artura nunca teve um mal-estar físico de dor tão aguda assim. Mas na última semana seu estômago estava de ponta-cabeça. Que borboletas, que nada. Nem libélulas, nem beija-flor. Está mais para arara, pica-pau, pombo sujo da Praça Santos Andrade, mosca morta, vespa verde. A comida entrava e ali parece que ficava por horas. Alimento preso no estômago torto, no estômago sujo. A água ebulia lá dentro.


Parou de comer. 

Artura no plantão do hospital com soro tomando. Já não bastasse o estômago estranho e vieram as picadas nas veias que sumiram. Derreteram ao perceberem a aproximação da agulha que fincou várias vezes como alfinete fino que escapa e se aloja entre a unha e a carne.

Ela disse que doeu.

Marcaram a radiografia para o dia seguinte. E seu estômago pesava cada vez mais. E mais. Pesou tanto que no curto caminho entre a cama e o banheiro gelado precisou ir sentada. Arrastando a bunda no chão. Limpando o piso poluído da enfermaria. Quando se deitou novamente a cama caiu, tamanho o peso de seu órgão. Dormiu ali mesmo porque não quiseram arriscar outra cama estragar. Pouco tempo durou seu sono cansado. Artura foi despertada por uma forte ânsia que escapou.

Vomitou. Vomitou. Vomitou.

Mas que estranho! Que caso interessantíssimo! É uma incógnita! Quanto mais vomitava, menos ela pesava. Quanto mais de si saía, menos em si de alivio ela cabia. Da boca do estômago de Artura não saiu comida, não saiu suco gástrico. Saíram letras. Sim, letras engolidas de palavras e frases não ditas. Letras tortas, letras bravas, cansadas, exaustas, raivosas, explosivas, chorosas. Leras pretas, vermelhas, roxas. De confusas no chão elas se erguiam decididas no ar. Leu-se dor, leu-se tristeza, insegurança. Palavras soltas e frases inteiras. Até um poeminha assim:

A lágrima que engoli
virou pedra no meu estômago
Aquilo que esqueci
tornou-se ácido no meu estômago
O beijo que não dei
apodreceu no meu estômago
O dia em que falhei
transformou-se em noite no meu estômago

O poeminha, as frases e as palavras depois de escritas no ar gargalharam bem alto assim: rá-rá-rá, rá-rá-rá! Ah, Artura, você atura muita coisa!






quinta-feira, 27 de junho de 2013

duros cílios

Brinco de boneca. Brinco de boneca na orelha ou brinco de brincar de boneca? Boneca tem vida quando brinca. Pode ter vida sem brinco. Quando não brincamos com elas, elas ficam


assim: sentada na cadeira torta a boneca ou a cadeira? Olhando pro teto. As mãos de dedos abertos. Paradas, mas expressivas. Se você brinca com elas, expressivas, se não brinca com elas, pausas aterrorizantes.

Voltei do Cream Porter e do Irish Red. Voltei da brincadeira de te encontrar. Voltei da brincadeira de te procurar. Ainda busco no esconde-esconde de mim. Alguém pra balança caixão balança você dá um tapa na bunda que vai se esconder? Alguém pra unidunetêsalamêlinguê o-sorvete-colorido-escolhido-foi você?

Voltei do sangue como água no meio-fio e voltei do medo de ser estuprada no meio. Da rua.

Caminhar no amarelo dos postes da noite. Caminhar reparando só no chão de minúsculos paralelepípedos. Caminhar reparando só no topo, no topo, no terraço, no alto dos prédios. Caminhar no céu preto com alguns focos de brilho. Coma o brilho. Qual o fosco que te transluz? Caminhar nas digitais lupadas, de lupa, dos meus dedos. Ontem tinham menos rugas. Ontem tinha menos tremor. Ontem tinha mais sangue.

É que o sangue no meio-feio. É que tinha espuma de sangue na água do meio-fio.

Sonhei com uma agulha de soro-que-me-cura-me-cura-?- fincada no pé. Direito. No pé que caminho direito. Doeu a veia verde saliente do topo do pé. Da superfície do pé. Da superfície. da pele.


Explodiu a veia. Véia. Explodiu a veia do topo da pele do pé. Puxei o rabo do tatu, quem saiu fui eu. Quem roubou pão na casa do João fui eu. O terceiro que a Terezinha deu a mão fui eu. A ligação que caiu fui eu.

domingo, 9 de junho de 2013

Dois pontos

- Você nunca pegou ônibus, né?
- Não.
Quer dizer, já. Mas não aqui.
- Pra onde você quer ir?
- Pro começo da estrada.
Quer dizer, pra rodoviária.
- Eu tô com um tempo livre. Vem que te acompanho.
- Da pra ir caminhando?
- Não é muito perto. Mas também não é muito longe.
Aquilo foi um sim. Ela entendeu e logo seguiu uma direção. Era a direção errada, mas ele preferiu ir pela empolgação dela. Depois arrumava a ordem do caminho.
Exercício difícil não pensar que ele estava com uma estranha e como assim? Eu nunca imaginei tamanha proximidade com quem nunca vi. Mas optou por tentar desativar o superego e é isso aí. Concluiu que o nó entre seus quase dois metros de altura e a delicadeza do pequeno tamanho da desconhecida estava levemente frouxo, mas feito. Afinal, quem corre maior perigo ali é ela. Eu sei que cidade é essa e por onde ir.
Mas será que sabia?, pensou eu que acabei de inventar essas duas pessoas. Até parece que a baixinha compartilha minha hipótese, já que
- Por que você não relaxa? Acho que você tá tenso.
- É.

Pausa. Pausa para ele desanuviar suas ideias aprisionantes e perceber que para ela é inevitável olhar pra cima. Os topos dos prédios, o cara escovando os dentes na janela, as roupas ainda esperando o sol, as tags, a planta que escapou do concreto, o edifício aceso da empresa que nunca para de trabalhar, a música sanfonada da sociedade portuguesa, aula de dança de salão, a luz colorida-brega da boate de terça-feira-quase-noite, a coruja no chão.
Pausa para ele se hipnotizar com o novo ao seu lado e, com o novo, se descuidar e tirar as mãos do bolso, escancarando que elas estavam roxas. Roxo escuro. Roxo pancada. Roxo hematoma.
- O que aconteceu?, recebeu a pergunta assustada.
O roxo hematoma das mãos saiu do peito, do preso que fugiu do coração. Foi pra onde todo mundo vê porque sua boca não diz e sua voz cala. A cor era tão intensa que abandonei por instantes a taça de vinho. O roxo hematoma das mãos saiu do peito, do plexo e pulou pros dedos que são obrigados a se relacionar. Ela agarrou uma de suas feridas e a segurou como quem segura um tesouro.
- Que horas sai seu ônibus?
- Não sei. Não tenho um ônibus pra pegar.
- Mas você não tá indo pra rodoviária?
- Sim, mas ainda não sei pra onde vou. Sei pra onde quero ir, mas não sei pra onde vou.
- Posso então te levar pra um lugar que gosto muito?
Aos sons de tijolos esbarrados e risadas algumas eles pularam o muro.
- Eu nunca invadi qualquer lugar antes.
Era a vez de ela mostrar uma franqueza. Subiram vários andares no escuro tomando cuidado com a fenda do elevador que nunca foi posto ali. Ela estatuou ao ver a cidade do alto e seu fim no horizonte.
- É bonito aqui. É lindo.
As confidências compartilhadas e os segredos divididos se assustaram com a repentina interrupção. Ele vomitou em meio a uma frase. Vomitou roxo o que não comia há dias. Há tempos seus órgãos não sentiam alívio e seu sangue até se esquecera da sensação tranquila de percorrer as veias sem entraves subjetivos ou existenciais.

- Obrigada pela companhia.
- Obrigado pela sinceridade.
Um abraço tão genuíno e caloroso que senti minha pele amortecer.
- É, acho que seu ônibus está saindo.
- É. Tchau.
Ele se recordou de tudo enquanto caminhava até sua casa e ao abrir a janela da sala desabafou:
- É bonito aqui. É lindo.
Ele, que já havia se habituado à composição daquela arquitetura com o céu, estalou os olhos ao reparar naquela cor que sempre esteve ali. Era uma cor que estava todos os dias, mas não era a cor de todos os dias. Ele até esqueceu o casaco cinza para se embriagar com o calor que o azul forte proporcionava. Os pelos altos de arrepio chegaram a dormir. No mesmo instante em que ela carregou as pálpebras pesadas em direção às sobrancelhas para se perder no céu escuro. No verde rasteiro e silencioso encoberto pela luz redonda e imponente que vinha do céu.
As mãos dele estavam brandas. Os olhos dela choraram doces alegrias saudosas. Eu finalmente respirei até os bronquíolos.