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sábado, 14 de março de 2015

Caçula

Desceu da cama faltando pouco tempo. Engana-se quem, engano-me eu, que acho estar ele atrasado. A trajetória entre dar um salto para fora do edredon quadriculado, objeto macio que guardou nossos sonos na infância e hoje é só dele, tirar a roupa para se banhar no chuveiro quente porque ele gosta de banhos quentes ainda que seja verão, por uma camiseta monocromática, escovar os dentes, arrumar o belo cabelo, ficar perfumado, não esquecer os óculos de sol, vestir o capacete que desarruma um pouco seu belo cabelo que continua belo, e estar sentado na mesa do trabalho, bem, toda essa trajetória é cuidadosamente elaborada. Isso penso eu. Mas quando penso como se estivesse a pensar com a cabeça dele concluo rapidamente que tal trajetória não é minuciosamente programada. É apenas óbvia. Que de outra forma se não a que lhe permite dez minutos a mais de sono?

Primeira dica: Não o acorde.

Quando eu estou lá passando dias de descanso e resolvo levantar cedo para resolver o problema das minhas cutículas crescidas desproporcionalmente, esbarro na trajetória dele. Ouço uma voz braba que me ordena terminar rápido o banho para que não se atrase. Fico irritada pela primeira vez. Há dois banheiros, mas ele quer usar este. Perco um minuto e meio entre o me enxaguar com rapidez para que ele não se atrase e o seguir no meu ritmo porque, afinal, há dois banheiros nessa casa. Mas ele quer usar este. Algumas coisas se estabelecem em um conforto difícil de mudar. Este banheiro é sim mais agradável, a janela observa o céu que acabou de acordar e ainda boceja, espia uns pássaros a procura do café da manhã. Eu sei que tumultuo quando estou aqui. Atrapalho a rotina com a minha desrotina de férias. Eu sei que ponho a chave no chaveiro enquanto era para largar na mesa. Sei que troco alguns copos de lugar. Mas filha do meio inventaram pra isso, não é? Guardo o restinho de irritação que logo foi embora só para que ele me veja com a cara fechada. Faço isso porque não posso deslizar e sorrir, não nesse horário da manhã, não agora que ele acabou de acordar e espera sentado como uma estátua-viva-muda na cama do quarto do banheiro que eu saia o quanto antes do chuveiro. Evito olhar para os seus olhos raivosos porque eles chegam carregados com uma expressão de “ê, minha irmã, você me bagunça e eu estou com raiva, mas eu acho graça disso tudo e gosto de ter você aqui com seu jeitinho desse jeito aí”. Sim, o caçula consegue me mirar com raiva e com carinho ao mesmo tempo. E isso, isso bagunça eu.

Segunda dica: Não fale com ele quando ele acabou de acordar.

Ficar longe de todos eles me dói na pele. Sinto falta dos aromas, das amoras. Sinto saudade do meu avô cortando frutas e limpando as unhas com o mesmo canivete. Da minha avó com sua crença bonita na vida, apesar das dores crônicas. Da minha tia quando a muralha que carrega para que ela não desmorone, desmonta. Da minha irmã com seu carinho materno e seu olhar de sempre vou cuidar de vocês. A simplicidade do meu cunhado que completa a vida e deixa ela mais bonita. Sinto saudades da força da minha mãe e do cheiro dela no travesseiro que roubo para dormir. Do meu pai, a felicidade carinhosa que quer dizer eu te amo sem que ele diga. As vezes estar longe dói tanto que os pelos dos meus braços caem.

Terceira dica: Isto não é uma dica: Ele te surpreende.

Quando os pelos dos meus braços estão no chão um abraço chega de longe. Esse cara dançando sob a água no meio da calçada me lembra você. Lá, eu estava na estrada e apareceu um arco-íris lindo. Ele voltava pra nossa cidade. Um dia cheio de causas, ações ou sei lá como se chamam essas coisas de injustiças. A estrada estava só para ele. Fim de tarde e seu coração foi tomado de colorido. Da esquerda de grama verde até a direita de casinha no meio do mato. Era um arco mesmo, de cores. Os arrepios de emoção que sentia foram aumentando conforme o arco-íris se aproximava. Ele diminuiu a velocidade do carro porque não tinha pressa em essa cena terminar. Foi que foi e foi chegando cada vez mais perto. Surpreso e plenamente feliz ele passou por baixo do arco-íris. O meu irmão mais novo, o caçula, passou pelo meio das cores que se formam no céu. Quando os pelos dos meus braços já estão no piso do quarto um abraço chega de longe em forma de ligação e ele me conta tudo isso. Foi a coisa muito linda, foi uma das mais lindas que eu já vi naturalmente assim, de fenômeno.

Dica quatro: Tem experiências que transcendem explicações.

Quando repliquei infinitamente essa história sobrancelhas erguidas me olharam. Passar no meio do arco-íris não é possível. Sinto por essas pessoas que acreditam estar longe o arco-íris. São as mesmas que não acreditam que os gatos choram.

Dica cinco: Foi a coisa muito linda, foi uma das mais lindas que eu já vi naturalmente assim, de fenômeno.




                                                            Foto: meu caçula

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Castanha-chuva

Enquanto o dia escurece antes que seja chegada a hora da lua estar visível aos olhos, e no mesmo momento em que o vento atravessa até a mínima fresta da janela da sala, Catarina morde uma castanha podre. De tamanho pequeno, mas suficientemente grande para uma-do-pará ela demora certo tempo em perceber o sabor morto. Não por ter o paladar desatento, mas pelas calmas mordidas que conseguiram triturar primeiramente a metade não estragada da castanha. 

Assim que os dentes romperam as fibras do pedaço desagradável, sua língua molhada quis devolver imediatamente aquele petisco potencialmente ofensivo. Os lábios, ao contrário, mantiveram-se cerrados como se cola persistente os pregasse. Ao perceber a rigidez de seu beiço ela levou as mãos à boca de forma a fazer movimentos verticalmente contrários, a fim de desencravar as peles grudadas uma a outra.

Após repetidas tentativas frustradas e emissão de sons angustiados, aqueles possíveis com a boca fechada, Catarina desesperou-se. Apesar da vontade de vomitar, seus lábios mantinham-se firmes na decisão de fecharem-se para o mundo. Questionando se haveria naquele pedaço podre de castanha qualquer espécie de substância capaz de imobilizar partes de seu corpo, Catarina sente a massa triturada e fedorenta crescer em sua boca. Ela tem medo de engolir aquela gosma. Ora, se a castanha conseguiu petrificar meus lábios o mesmo fará com meu trato digestivo. Minto, ela não pensou em termos técnicos ou formais. Caralho, se essa porra de castanha travou meu beiço vai foder comigo por dentro! A-do-pará se mesclava cada vez mais à saliva acumulada e Catarina se incomodava com essa espécie de bolo cru fermentando dentro dela, tornando-se pasta mole e marrom.

Quando tudo tentou e nada mais pôde fazer, Catarina se entregou ao sabor amargo e com nojo engoliu o volume pastoso. De olhos fechados sentiu o suco mal cheiroso de castanha-do-pará-podre descer até cair como cimento em seu estômago. Tal pancada a derrubou no chão. Ela não conseguiu levantar tamanho peso fétido mesclado ao suco gástrico. Aflita, ela deitou no piso frio e chorou. As lágrimas caiam silenciosamente enquanto seu rosto gritava de dor. De algum modo, o veneno em seu estômago espalhou-se rapidamente por outros caminhos internos e rim, pâncreas, bexiga, fígado, intestino. Catarina nunca havia sentido de maneira tão precisa seus órgãos. O medo a fez contrair todos e cada músculo, o que potencializou a aguda dor que sentia. Com um grito raivoso ela se entregou ao que não queria e, relutante, relaxou todo o seu corpo, cabeça, pescoço, pernas, orelhas, braços, baço, dedos, sobrancelhas, joelhos, língua, artérias, veias, células, sangue, pele e pêlos.

A dor era medo. Atenua, Catarina, atenua.

Catarina desacelerada derreteu. Escorreu pelas mínimas fissuras do chão branco e ficou derretida por algumas horas. Deu o suspiro mais profundo de sua vida e levantou-se. Queria comer as pitangas do pé de árvore da esquina.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pessoa Oculta

Mais uma Segunda-Feira.
Mais ou menos no mesmo horário passo em frente àquele café de esquina.
Mais uma vez te vejo sentado na mesma mesa.
Mais um café, ao que parece do mesmo café, você toma. Seus cabelos encaracolados ocupam o mesmo lugar de sempre. Cadeira que dá vista pra rua. Em que será que você repara quando seus olhos atrás das lentes se cansam da luz do computador? O que será que você pensa quando para de ler esse trabalho aí? Que tipo de coisa desprende a atenção de seus dedos, digitadores frenéticos? Será que você já percebeu que toda Segunda-Feira no meio da tarde eu passo em frente ao seu lugar reservado? Eu percebi que não tem sido coincidência te ver sempre no mesmo café, na mesma cadeira, no mesmo dia da semana, na mesma hora.
Ops, alguma coisa de você eu descobri. Alguma coisa além dos cachinhos simpáticos do seu cabelo, alguma coisa além de “antes você não usava óculos”, alguma coisa além do oi inesperado nos corredores de toda semana. E você? Será que você já percebeu que toda Segunda-Feira no meio da tarde eu passo em frente ao seu lugar reservado? O que será que você descobriu de mim? Reparou que cortei os cabelos? Reparou que antes de ter mais uma vez a nuca de fora meus fios ficaram longos e até coloridos? Viu que sumi por uns meses?

Como será que é a sua Segunda-Feira? Onde será que você estava antes do café? Pra onde você vai depois? Sempre te vejo com a mesma xícara. Passo rápido, eu sei, mas é sempre a mesma xícara porque é sempre do mesmo tamanho. Você só bebe, não come? Bebe a mesma bebida? A bebida de sempre? Qualquer dia diminuo os passos e como uma torta alemã, você vai ver.

Viu? Entrei no café. Eu vi que você viu. Vi que mexeu nos cachinhos, como se tivessem caído em seus olhos, só pra vira a cabeça pro meu lado. O horário me ajuda a escolher uma mesa estrategicamente posicionada para que eu te veja por cima do conto que estou lendo. Estou realmente interessada na leitura e minha timidez deve ter te confundido. Afinal, entrei nos seus olhos quando cheguei (tanto que senti uma coisa quente em mim, confesso) e agora fico com cara escondida atrás dessas páginas. Nada que o café com leite não possa me ajudar. Você viu que eu nem tô mais com a cara escondida atrás das palavras tagarelas que leio? Viu? Notou que mudei de posição quando uma moça sentou no meio da gente? Percebeu que pedi o tamanho grande, e não o médio, só pra demorar mais em ficar aqui nesse café de esquina, brincando de olhar meu olhar no seu?

O homem do conto está trepando com a mulher do conto. Foi logo depois do primeiro beijo, um beijo meio sem jeito com carinho nas orelhas. Será que o homem do conto tem cachinhos que nem você? Será que a mulher do conto é romântica como eu? Como será que é o seu corpo? A textura, a temperatura. O toque. E a voz? Oras, foi um oi muito rápido e há muito tempo. Sabia que me lembro do seu risinho em canto de boca naquele dia? Sabia que fiquei morrendo de vergonha e nem sei se minha voz soltou o oi pra te responder?

Como será que é tirar sua roupa? Que gosto tem sua língua? Que cor tem sua pele quando fica arrepiada? Será que suas mãos são quentes? Que cheiro você tem? Será que seus lábios são bons de morder? É que eles parecem bons de morder. Mostra mais seu sorriso, ele é tão bonito.

Ela chegou e te deu um beijo. Será que alguém reparou na minha cara de decepção? Será que você notou eu tentando disfarçar?
Vocês pagam a conta depois que ela come. Ela eu sei que come.
Nem quero mais saber aonde você vai depois do café.
Mas hoje eu não comi torta alemã.

Viu, qualquer dia diminuo os passos, viu? E como uma torta alemã, você vai ver.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas

Parece que escureceu de repente. O céu passou de azul-bebê a azul-bêbado em poucos minutos. A noite torna as luzes dos faróis contrários mais fortes e sinto como se elas invadissem minhas pupilas como feixes pontudos. Agudos.

Pontiagudos.

Mais um motivo para eu gostar do horário de verão e o principal motivo para eu detestar dirigir em rodovias durante a noite. O som calmo escolhido para a viagem, não, ele não me adormece, por ter medo de conduzir o carro em estradas bocejo de cansaço, não de sono, não, ele não me adormece, apenas acalma minha ansiedade em acelerar a velocidade, soltar o freio mão. Os acordes que saem do rádio acompanham a curva do meu pensamento que contornou a faixa amarela contínua e se lembrou de uma história:

- Você apareceu nos sonhos essa noite.
- Ah, é?
- Aham.
- E o que você sonhou?
- Então, foi meio estranho. Eu sentia que nós estávamos próximos, mas eu só te via de costas. Era uma sala de um apartamento calmo iluminada pela luz morna do sol em fim de tarde. Você vestia uma camisa branca maior que seu tamanho. Sentada no chão marrom, de frente para uma janela enorme, seu corpo se aquecia do suco gelado que tomamos. Nós conversamos algumas coisas, demos umas risadas, mas eu só te via de costas. E sonhei que soltava seu cabelo, e ficava trançando-o. Mas nunca conseguia terminar a trança. E sonhei que soltava seu cabelo, e ficava trançando-o. Mas nunca conseguia terminar a trança. E sonhei que soltava seu cabelo, e ficava trançando-o. Mas nunca conseguia terminar a trança.

Mais um pedágio. A iluminação viva que toma conta do telhado extenso alivia o latejar em meus olhos, afinal, aqui a luz não nasce apenas de pontos isolados. Sorrio para o moço que separa as moedas do troco porque gosto de sorrir. Ele é simpático e me responde um boa noite sincero. Sinto falta do seu boa noite aconchegante. Aquele que ainda não conheço, mas que me toca o rosto antes de dormir.

Percebo uma grande movimentação na outra pista. Sirenes mudas e uma leve confusão denunciam um ônibus tombado. Me espanto ao ver tamanho automóvel preso ao chão, mas após engolir o ar rapidamente e olhar para a esquerda não vejo ninguém aflito, ninguém chora. A cena do desastre parece acontecer em câmera lenta. Acho que não passou de um grande susto. Não tenho certeza. Especulo sem sucesso se havia muitos passageiros, se outro veículo se envolveu na colisão, se alguém ficou machucado, se morreu. Esses pensamentos crescem incontrolavelmente na minha cabeça, aquela cena me faz lembrar o quão frágil é a vida. Penso na minha família, que estou longe de todos e que estou sozinha. A saudade aumenta. Quando volto para a Capital, após visitá-los, a saudade aumenta. Durante alguns dias após o fim da visita ela espreme meu coração e faz suco de sangue triste em mim. Eu me desespero e balanço a cabeça repetidas vezes a fim de jogar para fora essa sensação de medo e angústia. Eu choro, mas quase, porque ao receber as lágrimas que quase caem me permito fechar os olhos por breves segundos, sempre longos quando se está na estrada, mesmo que o caminho seja essa reta a atingir o horizonte, mas me permito fechar os olhos. E mesmo assim os feixes pontudos dos faróis me pinicam. Sabe aquela lágrima que escorre sem querer denunciando a dor e percorre a eternidade do rosto até que finalmente se cala e morre na boca?




Novamente a pista à minha frente. As linhas amarelas cortadas. Eu não sei se você vai conseguir terminar essa trança um dia. Sabe aquela lágrima? Tenho pensando em cortar meu cabelo, mas tenho adiado isso também. É como fumaça de brasa que arde os olhos quando apagamos o que resta do fogo com água repentina. Com os fios longos é mais fácil segurá-los sem que escorreguem, sem que lhes escapem. Não tenho certeza.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Mastigando nuvens

Não tanto quanto o garoto com armações nos olhos desde os quatro anos. Ontem ele saiu do estágio um pouco depois que os outros, não para trabalhar mais e finalizar antes do previsto o projeto de grande responsabilidade que lhe cabe, mas porque se perdeu no relógio ao admirar a nova fotografia de prédios com céu que a garota, aquela garota dos cabelos coloridos com quem cruza nos corredores da universidade, publicou no Flickr.

A monotonia no rosto da mulher com maquiagem e coque falando ao telefone na janela do prédio mais alto da foto, o lembrou duma cena que ele filmou com os olhos e guardou na memória. Era fim de semana de rua na capital paranaense. Shows espalhados pelas calçadas de petit-pavé e até por praças nunca antes exploradas pelas notas musicais. No palco um clássico da música brasileira com quem ele compartilhava apenas as canções mais famosas. No asfalto seus pés revestidos pelo par azul de tênis velho, cansados das horas acumuladas em pé nos últimos dois dias. Os amigos que o acompanhavam se empolgaram em uma conversa sobre a exposição do eu nas redes sociais pouco depois dele, o meu personagem favorito, se hipnotizar pelo edifício grande de cor triste. Mais especificamente, por uma cortina que escapou da janela durante o fim de semana. Obviamente, algum funcionário ansioso por se divertir na sexta-feira saiu ligeiro após as seis horas, sem perceber que deixou para fora um pedaço da cortina que fica presa ao trilho das piadas repetidas e das planilhas infinitas. Obviamente. Mas prefiro como soa “uma cortina que escapou da janela durante o fim de semana”. O tecido branco de espessura leve ritmava com o vento sua felicidade em quase flutuar acima das árvores. O movimento era sincero e sem pressa, ao contrário do funcionário entregue à rotina. A fluidez da cortina contente desenhava frente às janelas empoeiradas uma coreografia sem repetições que gargalhava aos rodopios e dançava o som das vozes a cantar. Foi o melhor show de artista semidesconhecido bastante reconhecido no Brasil que ele foi.

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Meu olho ardeu por três dias até que uma pequena camada redonda gelatinosa, grande para um olho, nasceu no aparato em forma de oval deitado na parte do meu corpo humano feito próprio para enxergar. Demorei em aceitar que poderia ser algo sério e só então procurei uma oftalmologista.
- Estresse.
- Oi?
- Essa capa-circular-gelatinosa-de-cor-transparente-portanto-sem-cor nascida em seu olho e aí inquilina há uma semana foi ocasionada por estresse.
Obviamente, a oftalmologista se utilizou de termos técnicos os quais não me recordo neste momento. Nem em outro.
- Vou lhe receitar um corticoide. Volte em dez dias para eu analisar a evolução da capa-circular-gelatinosa. Podemos aproveitar e realizar os testes necessários que nos dirão se você precisará utilizar graus em vidro dentro de uma armação a fim de melhor ver e, logo, observar a maneira como o mundo se lhe apresenta.
Voltei.
Meio grau em cada olho.
Coisa pouca, mas tenho que usar óculos, sem os quais as letras embaçadas na tela do computador ou do cinema me agoniam, afinal, agora eu descobri que o mundo é mais nítido e que não existem tantas fumacinhas em volta da lua ou da luz do poste.
Então, eu utilizo óculos com a vantagem de que posso esquecê-los de vez em quando em cima de algum livro que ficou em casa. Até que preciso deles, mas não tanto quando o garoto com armações nos olhos desde os quatro anos.
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Sem as lentes cheias de graus, ele ficaria impossibilitado de ver a foto de prédios com céu que a garota dos cabelos coloridos com quem cruza nos corredores da universidade publicou no Flickr. Ficaria impossibilitado de reparar no contorno das nuvens atrás dos prédios, como ela bem capturou, utilizando a melhor abertura do obturador da câmera e o mais preciso tempo de exposição do filme à entrada de luz que aquela imagem exigia. Ah, quanta beleza e detalhe nessa foto! Sem os graus na frente dos olhos ele não teria reparado nas miudezas daquele clique sensível. Sem os tais, também não teria fôlego para puxar conversa com sua admirada no corredor do dia seguinte. Sem eles, não teria descoberto que as nuvens daquela foto a lembram uma brincadeira de sua infância.

A menina dos cabelos coloridos é filha única de uma família que morava em um condomínio fechado de vizinhos sem filhos. Por muito tempo foi uma criança solitária que encontrava em tudo uma descontração. No fundo de sua casa havia três árvores frutíferas, uma cabana de madeira, um balanço de pneu e um grande pedaço de grama. Em dias ensolarados ela gostava de reparar em como as nuvens são fofas, grandes, brancas, imponentes e saborosas. Nada, nada como mastigar nuvens. Ela sempre levou jeito, como bem diz sua avó, para ser atriz e ela utilizava essa habilidade para imitar os adultos. Acontece que cigarro ela não podia por na boca. E nada tão incorreto e emocionante para uma menina de seis anos como fingir tragar um proibido. Deitada no verde, ela se apoiava em um dos cotovelos e mantinha um pé cruzado sobre o outro. O braço que sobrava era dono da mão a segurar o invisível tabaco entre os dedos. Para ela, cigarros eram as nuvens da terra. De mesma cor, uma a impressionava pela beleza e outro pelo odor amargo. Com pose de personagem principal de filme alternativo (era assim que ela se sentia) a menina mimicava um profundo trago-nicotina com direito a olhos fechados enquanto imaginava, não, enquanto sentia a densa fumaça entrando em seus alvéolos. Fumaça que quando soltava ia voando para o céu e quando muitas fumaças se reuniam no teto azul, as outras crianças, as que não desejavam o cigarro, vislumbravam acima de suas cabeças carneirinhos, pássaros, ursos e dinossauros.

Sem os graus em vidro enjaulados numa armação ele jamais teria sentido o deleite dessa confissão. Ele, o garoto com armações desde os quatro anos. Ele, o estagiário que saiu mais tarde. Ele, o garoto que sonhava com sua admirada de cabelos coloridos. Ele, o menino que viu uma cortina-bailarina. Ele, o meu personagem favorito.



Foto: Bianca dos Santos

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Festa à Fantasia

Fui convidada para uma festa à fantasia. Não sei que personagem escolher. Não quero ir de Branca de Neve porque eu não como maçã. E se comesse, a envenenada, morreria pra sempre. Não nado tão bem para me transformar numa Pequena Sereia e nem quero perder minha voz para ter uma calda flutuante que talvez sangrasse com o sal do mar. Não tenho a paciência de Rapunzel para esperar meus cabelos crescerem e nem bela voz para cantar quando há tédio. Se grandes tranças tivesse as usaria para voar. Correia até o topo mais agudo do morro mais alto que fica mais longe e me deixaria cair. Caiiiir, caiiir. O vento bruto de baixo pra cima me ergueria o vestido de princesa e taparia toda a minha visão. Irritada e em plena queda eu daria um jeito de despregar os botões pra que o vestido de princesa passasse direto por mim, subindo até a minha cabeça pra se perder em alguma árvore quando, depois de quase atingir o topo mais agudo do morro mais alto que fica mais longe, encontrasse a gravidade outra vez. E então, sem vestido pesado de princesa sentiria as aconchegantes cócegas das nuvens, o cheiro das flores nos meus seios e o volume dos pássaros nos meus ouvidos. Com as tranças desfeitas e o perigo do chão se aproximando meus cabelos castanhos, e não loiros como imagino envenenada pelas histórias-Disney enquanto escrevo este trecho, se transformariam numa cama que resguarda meu pouso. Como rede eles se colocariam entre duas árvores para eu respirar ali o fôlego da viagem que é cair do topo mais agudo do morro mais alto que fica mais longe e não morrer.

Fui convidada para uma festa à fantasia e não sei qual personagem escolher. Não quero ir de Bela Adormecida pra não correr o risco de perder a festa e ficar a noite toda em casa. Dizem que a Bela, a outra, gostava de ler. Quem sabe eu não encontro uma Fera na tal festa? De Cinderela não tem como porque eu não tenho madrasta e nem falo com passarinhos, ratinhos e esquilos da floresta. Se falasse procuraria a resposta pra pergunta que me insônia: onde encontro o filete de calma que perdi no caminho da rotina?

Fui convidada para uma festa à fantasia e não sei qual personagem ser. Conversando com uma amiga naquela rua que não passam carros e conversando com a mesma amiga tomando suco de framboesa, a minha amiga que estava comigo na rua onde não passam carros tomando suco de framboesa disse sei lá, não tenho nenhuma ideia de fantasia pra você ir na tal festa à fantasia. Pensei em ir de espiã no momento em que o último gole gelado de framboesa caía no meu estômago quente. Eu vou de espiã nessa festa à fantasia para investigar onde encontro o filete de calma que perdi no caminho da rotina.

Fui convida para uma festa à fantasia e não sei qual chave quebrada. Chave quebrada.

Chave.

Quebrada.

A minha chave está quebrada na porta do apartamento. Eu nem vi isso antes e nem sei o que fazer com isso agora. Eu poderia ligar para um amigo, quem sabe para um chaveiro. Tudo indica que tenho instrumentos físicos e raciocínio mental para tal. Mas não. Eu nem sei como essa chave se quebrou. A minha chave está quebrada na porta do apartamento. Devo ter ficado uns vinte minutos com as costas curvadas reparando na nova rachadura da porta segurando metade da chave na mão. (É que quando respirei mais profundo doeu no pulmão. Acontece. Quando se fica com as costas curvadas por pelo menos uns vinte minutos com metade da chave na mão reparando na nova rachadura, ou na nunca antes reparada, falta ar entre as costelas e elas demoram a se expandir outra vez. Então, até que se acostumem com o ar entrando no meio dos ossos dói mesmo. É preciso respirar fundo várias vezes).

Seguro na mão a outra metade da chave e olho com testa enrugada para a porta. Eu nem sei como essa chave se quebrou. É impossível sair, visto que essa é a única passagem desse metro quadrado que me serve de moradia. Eu nem sei quando o meu pensamento se curvou. Do olho mágico eu vejo um pedaço da janela que fica no fim do corredor. Da janela eu vejo um pedaço da construção que fica no fim do corredor. Dentre os tijolos há boas camadas de cimento preso. Eu vejo concreto na cara do vizinho que está levando seu cachorro para um passeio. Concreta eu parada feita uma porta. Essa porta! Presa eu entre o lado de lá e o lado de cá feito o coitado do cimento. Minha testa enrugada respira apoiada na tal porta enquanto minha mão, a mão que segura a outra metade da chave, continua ao alto, próxima ao meu rosto de olhos fechados que ainda não encontraram o filete de calma perdida.

Fui convidada para uma festa à fantasia e acho que hoje vou fazer aquelas panquecas de salivar a boca. Comer, dormir e aguar as plantas. Ver um filme e não lavar a louça. A minha chave está quebrada na porta do apartamento. A minha clave está confusa no meio de tanto instrumento.

Tem outro vizinho passando com outro cachorro.

Quando o braço que tem a mão que segura metade da chave já estava entregue ao peso de estar no alto, reparei no namorado que saiu correndo atrás da namorada. Ele ainda vestindo a camiseta. Ela puta bateu com força o portão do meio lá embaixo, e a vibração de sua raiva direcionada aos seus músculos numa intensidade tal capaz de tremer o portão ao fechá-lo subiu pelas vigas internas do prédio antigo, percorreu rapidamente as paredes esponjosas e vibrou a porta do meu apartamento que tinha nele repousada: a minha testa. Ai.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Saudade

Estava na cama já fazia dezenove horas seguidas. Vontade de levantar? Não tanto assim. Mas ainda havia algo saudável naquele corpo e naquela mente. Ela ainda se prezava de alguma forma. Ela não se abandonou. A bexiga não conseguia mais guardar o mijo que saiu depressa, quase antes dela conseguir abaixar a calcinha fedida e se sentar no vaso. Quantos dias sem banho? Ela nunca contou. Tempo pra ela é outra coisa. 
E ela pensou que tem vezes que o dia seguinte é exatamente o que não precisamos. Ele amanhece só pra nos lembrar de que mais uma vez não deixamos aquela frase escapar, quisemos e não fizemos. O dia seguinte nos lembra de que depois de tocar a campainha, a coragem faltou, fugimos. O dia seguinte lembrou que a vontade ainda é a mesma: amar-te mais uma vez e, quem sabe, por muitas vezes mais. O dia seguinte lembrou que a vontade ainda é a mesma: Abraçar-te, meu querido. E te ninar, meu amor. 
Semanas, semanas, semanas e semanas dentro do quarto. O apartamento estava repleto de copos sujos, guardanapos jogados no chão. Cheiro forte de cigarro com whisky vagabundo. Havia tanta bebida naqueles apertados metros quadrados. Tanta sujeira. Fedor de depressão, de angústia. Uma cena de descuido próprio. 
Umas dez ou doze mensagens na secretária eletrônica. “Oi! Que saudade de vocês! Eu chego no Brasil daqui umas duas semanas. Eu ligo, beijo. Olá, quer ganhar descontos de 50% com o se... Consegui transferir seu pai pro HC daí. Filha, eu to indo te ver”. 
Teve que acender a luz do banheiro porque ainda era madrugada. Quando ela se viu no espelho, se assustou. Mas os olhos fundos faziam jus à boca com gosto de remédio, ao estômago cheio de café e aos cinzeiros espalhados repletos de bitucas de cigarros. Apesar disso, não se reconheceu. 
Tirou a roupa suja de vinho e com manchas de café. Fazia frio, mas quis uma ducha gelada. Ela já havia se esquecido do som do chuveiro. Entrou com o corpo de uma vez só. Ela berrava, a água doía até nos seus ossos finos. Ela berrava e batia no próprio rosto. Barulho de água caindo. Mais berros. Ardidos estalos de mão fria que se chocava com o rosto branco machucado. Ela berrava. 
Tremendo desligou a ducha. Subiu molhada na patente agora molhada. Alcançou o chuveiro. Água quente. Ligou o chuveiro mais uma vez e se aqueceu embaixo dele. O berro cedeu lugar a um gemido de alívio. Ela começou a chorar. Ficou mais uns quinze minutos ali, a água escorrendo pelo ralo junto com suas lágrimas de dor. 
Esqueceu a toalha como se esquecera qual foi a última vez que quis falar com alguém. O corpo encharcado escorreu água pelo piso frio do banheiro, pelo corredor e pelo quarto. Ela pegou uma toalha felpuda e embolorada e se secou rapidamente. Fazia muito frio. A casa estava fria. Aquele lugar não a acolhia mais. 
Pôs uma roupa bonita, se perfumou, colocou aqueles brincos, pegou aquele livro de histórias e voltou pra sala. Acendeu mais um cigarro. Encheu o copo novamente. Dessa vez, conhaque. Conhaque com café. Um a um, ela recolheu os porta-retratos que estavam quebrados no chão e os que estavam de costas pra ela em cima da estante. O choro incontido incontrolável veio sem perguntar se podia. E eu me enganei quando disse no começo que ela se levantou por se prezar de alguma forma. Ela se levantou, se banhou e se arrumou para encontra-los. Ali. Na sala. Quebrados no chão. Intensos na memória. Bebeu mais um gole. Olhando as fotos agora apoiadas no seu corpo ela tragou rapidamente. Os olhou com carinho. Tirou os cacos de vidro de cima deles, afagou seus rostos no papel. 
Limpou o rosto molhado, fingiu felicidade e “era uma vez...”... ... ... ... ... ... 

A dor era assim reticente sem fim. Ela não tinha mais o que chorar. As lágrimas secaram de tanto que caíram. Permaneceu sentada no chão com as lembranças ao redor. 
Ouviu barulho de chave na porta e permaneceu imóvel como estava. O olhar longe, o sentimento doído. Era sua mãe. Ela pôs a filha no colo que continuou calada. Mesmo quando recebeu um beijo na testa e um aperto caloroso. Depois de alguns minutos, de repente, como se só agora sua mãe tivesse chegado ela gemeu enquanto o choro voltava e ela a abraçava: “mãe, ai mãe”. 
E as duas ficaram ali, abraçadas, agarradas. Assim como mãe agarra cria e cria agarra mãe. Pela janela grande elas ficaram olhando a bastante chuva que caia fina em paralelo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sorvete

Olhou para o banco da praça. Olho em volta. Todos continuavam suas tarefas cotidianas. Caminhou tímida até o banco como se alguém a vigiasse e sentou-se. Desconfortavelmente, é verdade, mas sentou-se. Sem descansar a pasta grudada ao peito a mulher experimentou parar um pouco e observar. Depois de uns minutos reparou que preferia investigar as crianças que eram arrastadas pelas mãos entrelaçadas com adultos apressados. Reparou também que a pasta estava largada em seu colo. A coluna dela já não estava tão ereta e as pernas não estavam rigidamente fechadas. Mas isso fui eu quem reparou, não ela. Os ombros relaxados denunciavam que estava mais íntima do encosto do banco. Mais íntima da praça também. E de quem via. 

E de quem a via. E de quem a vida. E quem a vida deixou relaxar um pouco também. 

Levantou-se sem saber ao certo porque estava fazendo isso, mas tudo bem, ela tinha que aprender a pensar menos. Rindo de si mesma pediu uma casquinha com uma bola de morango e outra de chocolate. E neste dia também resolveu caminhar até sua casa. Ela ria do que estava fazendo enquanto recordava sua infância numa rua sem saída de terra batida. Relembrando-se dos joelhos ralados, das unhas imundas, dos pés descalços. Dos muros e árvores escaladas, das corridas, das caídas, das risadas. 

Mas os sorrisos de rugas nos cantos dos olhos que as memórias do parágrafo anterior causaram se cessaram no exato momento em que o sorvete caiu no chão. Caiu o sorvete, caiu a pasta, caiu a felicidade. Pensando bem, a felicidade tropeçou. E no tropeço sim se deixou cair. Ela - não a felicidade, mas a mulher - ficou parada observando agora não a sua vida de menina que passava na tela da memória ou a vida de quem passava, mas o sorvete rosa que ia se misturando com o sorvete marrom. Um pouco estava derretendo e o outro pouco estava derretido. Então ela pensou que o derretendo e o derretido eram, em algum momento invisível, uma coisa só. Com os braços soltos ao lado do corpo e a cabeça baixa ela viu as fissuras da calçada serem pintadas de um doce não tão colorido assim. Eu vi sua estagnação, sua decepção. Eu a vi se abaixando. Ela se abaixou. Eu a vi se sentando. Ela se sentou. Eu a vi chorando. Mas ela não chorou. 

Ela contemplava o gosto nostálgico da infância se desmanchar e constatou que a casquinha do sorvete continuava ali, inteira. Ela pensou que queria ser a casquinha, não o sorvete. E não era necessário ser uma casca tão firme assim. Bastasse que fosse uma casquinha sua. Eu doí quando ela pensou isso porque começou a chover e na chuva a casquinha começou a amolecer. Elas; não a casquinha e a chuva; mas a mulher e a felicidade, amoleceram também. E derretidas foram embora. A mulher pegou a pasta com um gesto obrigatório de quem precisa daquilo para o dia seguinte. Caminhou devagar e molhada até sua casa como quem vai enfrentar uma noite acessa. Ela deitou no travesseiro com uma cabeça que não aprendeu a pensar menos. 

E eu me molhei na chuva até que a casquinha morresse.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Baionetas no estômago

Justo no do domingo de manhã. Eu com cara de quem acabei de acordar, mas quem não dormi a noite inteira. A cama grande demais, apesar do colchão de solteiro. Os pés demorando mais pra esquentar e o lençol frio onde não tinha eu. Onde não tinha você. Busco qualquer música bem específica pra escutar e encontro, mesmo sem querer encontrar, um vinil que você esqueceu. Ou que não veio buscar. A vitrola respira perto de mim, mas não faz cosquinha atrás da orelha. O vinho também solitário me esquenta, mas não faz carinho na barriga. As lágrimas encontram minha boca, mas não me beijam. Eu posso andar pelo apartamento enquanto dure a madrugada que nenhum abraço-surpresa que me assusta pelas costas vai dizer que eu tô bonita nessa calça de moletom cinza sem calcinha. Meu corpo sofreu a noite toda de abstinência do teu. Eu tremi a noite toda de abstinência de você. E justo no do domingo de manhã. Eu com cara de quem acabei de acordar, mas quem não dormi a noite inteira. A primeira roupa que vi na minha frente e o cabelo ainda bagunçado. Fui comprar uns sonhos pra acompanhar o suco de laranja que iria fazer. Uma flor pra colocar na mesa.

Bem no domingo de manhã. Eu com os olhos estalados como se eles tivessem descansado a noite inteira. A cama extremamente desconfortável sem o peso de metade de você em cima de mim. O silêncio me incomoda. O silêncio da sua voz tagarela me incomoda. Enquanto tomo banho percebo a prateleira organizada demais. A neblina branca mostra um coração sorridente desenhado no box. Quando visto a camiseta percebo que estou molhado. Mesmo estando seco. O vento assovia, mas é afinado demais. O cobertor é quente, mas não sabe me abraçar. A capa do livro que você esqueceu, ou que não veio buscar, me mira, mas seus olhos não brilham. Eu posso ficar na poltrona da sala enquanto dure a madrugada que nenhum gemido vai me sussurrar no ouvido. Nenhuma mão delicada com cheiro de pêssego vai me delinear o rosto. Nenhum sorriso vai me seduzir. Meu corpo sofreu a noite toda de abstinência do teu. Eu tremi a noite toda de abstinência de você. Bem no domingo de manhã. Eu com os olhos estalados como se eles tivessem descansado a noite inteira. A aparente roupa de quem não acordou no domingo pela manhã. Fui comprar café pronto. Dois pra me acompanhar nas torradas matinais. 

E justo no do domingo de manhã. Eu com cara de quem acabei de acordar, mas quem não dormi a noite inteira. A primeira roupa que vi na minha frente e o cabelo ainda bagunçado. Fui comprar uns sonhos pra acompanhar o suco de laranja que iria fazer. Uma flor pra colocar na mesa. Na sua mesa. Mas te encontrei no meio do caminho com dois copos de café pronto e a aparente roupa da última madrugada. 

Bem no domingo de manhã. Eu com os olhos estalados como se eles tivessem descansado a noite inteira. A aparente roupa de quem não acordou no domingo pela manhã. Fui comprar café pronto. Dois pra me acompanhar nas torradas matinais. Que eu ia fazer na sua cozinha. Mas te encontrei no meio do caminho com uma flor na mão.

sábado, 2 de junho de 2012

Apressurada sem sopro inspirado

Achei delicado eu sozinha brincando com o fuxico de um marcador de livros parada no ponto esperando o ônibus que não chega olhando pra baixo com um livro de nome ‘Las mujeres más sólas del mundo’. Livro que eu li tão pouco que é como quase não comecei. É que eu gosto tanto daquela capa que fico olhando pra ela e a imagino em movimento. Daria uma cena bem bonita. A mulher de pernas brancas e vestido preto que não vemos o rosto e a vemos de costas correndo numa rua onde só tem ela. Ela foge? Ela busca? Será que ela tá com pressa como eu que tenho 45 minutos pra chegar o ônibus e chegar ao cinema ou será que ela tá assustada? Eu tô fugindo das pessoas porque parece que é hora de não esperar ninguém e fazer tudo sozinha como quase sempre foi. Alguém me acompanha? Não? Tudo bem vou assim mesmo. Só que hoje eu nem pergunto mais. Saio. Ou fico e choro. Ou vou e choro. E nem sempre quando a gente chora tem lágrima. É como se os órgãos chorassem por dentro, só que como – é óbvio – órgãos não choram acontece que eles ficam trocando de lugares entre eles. O estômago vai pra garganta e o rim no pulmão. O pâncreas segue tremendo pra combinar com seu nome, encontra o coitado do apêndice perdido no meio do caminho sem saber o que fazer até que chega à casa da bexiga que sempre tem alguma coisa pra gente tomar. Essa sim chora. E quando eu espirro três vezes atchim atchim atchim aquele menino que tinha certeza que eu não reparei que ele me olha há uns dez minutos me diz saúde e eu obrigada. Quando a senhora de maquiagem eterna e saia de veludo roxa aponta seu dedo maior de unhas vermelhas pra chamar o motorista e pedir pro motorista parar um pouquinho depois do ponto ela desce um pouquinho depois e me olha rindo pra minha cara porque eu jurava que ela não tinha reparado que eu a reparava há uns dez minutos. Compro entradas pra dois filmes porque acho que vou ver todos e acaba que durmo no primeiro. Quando acordo quero ir embora só que pra não atrapalhar quem parece interessado naquela historinha sem graça e clichê de um dramaturgo fodão e velho que trepa com suas atrizes eu espero uns vinte minutos e durmo de novo acordo e o cinema já está vazio. Só quando minha chave caiu é que reparei que ela não tem segredo e aí qualquer um pode entrar na minha casa e ninguém entra. Depois de passar pela cozinha e antes mesmo de chegar ao quarto o sofá da sala me sugou. Rolou uma correria antes seguida de uma luta de fuga que eu não pude vencer. O bom de bater nele é que não dói minha mão. Foi mais ou menos assim o sofá começou a remexer enquanto as almofadas de sentar se tornaram pés e as almofadas de encostar eu não sei o que aconteceu com elas. O sofá era mais alto que eu, o que nem é difícil, e tinha voz grossa e assustadora que me fazia gritar mais ardido e agudo que minha voz cotidiana. Nós corríamos pela casa eu na frente e ele me perseguindo até que escorreguei num tomate e só não caí porque ele me segurou e nesse momento rolou um momento de tranquilidade até que eu tentasse correr uma vez mais. Coitada de mim que fiquei presa no encontro de duas paredes. Aí não teve jeito o sofá me engoliu e voltou ao seu lugar pra que ninguém perceba minha falta. Aqui dentro tá escuro apertado eu tô sozinha. A diferença daí de fora é que fica confortável aqui e o sofá me abraça apesar da sua cara de mal. Não sei quando volto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Polainas

Já fazia tempo que o inverno prometia chegar, mas ninguém mesmo. Acreditava Camile que dia ou outro ia. Acontecer de ficar frio?, perguntava com deboche a maioria que. Desconfiava Camile da incerteza, ela sabia que algum dia ia ter. Inverno para apreciar. Tudo muito quente ali durante o dia. Era como noite quando o sol estava. Camile em seu quarto pensando há quanto tempo. A chuva não havia faz tempo. 

Cidade quente tem os costumes mais frescos que consegue. A vida dormia durante o dia para sair na rua só quando era noite. Sair de passeio, sair a trabalho, sair a estudo. Enquanto o resto do mundo se repousava em seus quartos escuros roubando a coberta de quem dorme junto, todos ali estavam com os olhos estalados e as mentes funcionando. Enquanto muitos que queriam aliviar a bexiga tropeçavam no escuro do sapato que está no meio do corredor, a cidade de Camile acendia luzes artificiais. E apesar do sol insistentemente tórrido a rachar os frutos caídos no chão e a esturricar as roupas esquecidas no varal, quem prefere ler e produzir pela madrugada se muda para Polainas. É para poder existir de noite sem ser estranho. E mesmo com o sol abrasador rompendo pulseiras artesanais antes do tempo, a maioria das pessoas de Polainas não tinha cor. Antes, quando a pele suportava caminhar durante o dia pelas ruas, os moradores dali até tinham alguma expressão de melanina para alegrar o corpo. Mas hoje todos preferem ir pela sombra da lua. E a culinária preferiu não colocar pimenta na comida dali. 

E por ser quente assim muita coisa secou. Não só lagos, rios e piscinas de plásticos. Não só as poças dos buracos das calçadas. Não apenas caixas d’água e chafarizes. Mas também o orvalho secou. As gotículas de água que sempre sobram dentro das mangueiras, as gotículas de fora da garrafa que tem bebida gelada. A coriza do nariz, o suor do meio-dia; as lágrimas. As lágrimas também. Porque em lugar seco lágrima é água e não pode ser desperdiçada. Sem nada líquido para sair da alma por meio dos olhos, o choro era de lã. Sim, as pessoas de Polainas choravam linhas de tricotar. Os recém-chegados até choravam água antes de suas células quase secarem. As cores das linhas variavam de morador para morador, mas geralmente, as de felicidade tinham coloração azul-claro; as de tristeza eram cinzas; as de amor, rosas; as de paixão, vermelhas; as de raiva, roxas; as de forte emoção, magenta; e as de dor física eram sempre uma surpresa porque dependem do estado emocional anterior ao tombo, ao corte ou à pancada. A única cor igual para todos ali era a do luto: linhas grossas e pretas. Em Polainas, a dor do choro era dor duplicada. Dor de joelho ralado ou de coração cortado somada ao incômodo de chorar quente num cidade que não é fria. 

Como ninguém queria guardar lágrimas de lã era comum ver o chão da cidade, os gramados dos parques e os pisos dos ônibus coloridos com fios soltos. Claro que eles eram poucos porque quase ninguém chora em público. E claro que esse colorido era sutil porque só aos olhos de Camile é que ganhava brilho. Os choros das ruas são, geralmente, choros de cores-surpresa porque a dor do amor, da perda e da angústia ficam para o colo do amigo, para a cara de conhecimento do analista ou para o travesseiro isolado. Aliás, quase ninguém queria guardar lágrimas de lã. Quase. Camile queria. Camile guardava. Ela recolhia todos os cordões que encontrava. Nos dias em que estava cansada demais para caminhar ou nos dias em que queria ler seus livros, parava num ponto estratégico de uma praça. Ali havia um buraco quase imperceptível em que muita gente tropeçava. Algumas delas, principalmente as crianças e estas todas, choravam quando a pele rompia ou com o susto inesperado. Interessante, percebeu Camile, que ninguém fazia nada em relação àquela falha na calçada. Nem ela mesma. Se sentindo extremamente sarcástica e fria quando foi recolher os fios do último choro alheio que antecedeu esse seu pensamento ela se enfezou, guardou os óculos grandes na mochila e arranjou um galho de árvore bem chamativo para que mais nenhum otário que passa ali todos os dias caísse ou deixasse que isso se passasse com seus filhos. 

Era no baú embaixo da sua cama que ficava em cima da casa que Camile guardava os choros das pessoas. Eles não ficavam ali espalhados, mas compunham peças de inverno que teriam uma finalidade bem específica com a troca de clima. Troca de clima que chegou. De dentro dos armários para envolver os corpos: as roupas de inverno, que já estavam tristes por acharem que nunca mais seriam lembradas aproveitaram, com muito prazer, as caminhadas pelas ruas. Cumprimentavam-se sem que ninguém percebesse. O assunto às vezes era interrompido quando alguém descia um ponto antes na parada do ônibus. Ou quando outro fechava o casaco na tentativa de se aquecer ainda mais, deixando assim, a blusa que falava sufocada com as palavras que queriam sair. O céu deixou de ser azul enquanto a preguiça das pessoas deixou de aparecer depois do almoço e começou a se manifestar quando o relógio despertava. Mas a mudança mais marcante é que aos poucos todos preferiram sair durante o dia e fazer igual ao resto do mundo durante a noite. A cidade mudou de costumes. De costumes frios para costumes quentes. De água gelada para água calientada. De pouca para muita roupa. E a culinária colocou pimenta na comida dali. Aliás, quase todos. Camile continuava gostando da noite. 

Camile saia para caminhar enquanto todos dormiam. E consigo levava o conteúdo daquele baú. Quando a cidade repousava ela colocava nos cantos de Polainas as lãs choradas. Em cima de um banco, uma luva; no galho da árvore, um cachecol; no muro sujo, um gorro; no meio da rua, uma polaina colorida. Mas antes mesmo de todos se despertarem, agora quando o sol também despertava, Camile recolhia o que não era encontrado. Então só quem tinha coragem de não abandonar a noite ou quem simplesmente gostava muito dela, é que podia ter o pesar ou a felicidade das lágrimas transformadas em presentes de carinho quente enviados por algum desconhecido. 

Durante o dia as pessoas que caminhavam na. Noite quase sem ruídos se escutavam. Vozes pra falar do que não se diz durante. O dia era o momento de reparar em quem é. Cúmplice da noite que. Busca Camile o próximo jeito de dizer: respire, repare.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Cinema

Viagem de rotina para... estudos. É, foi o que eu assinalei dentre as opções daquela passagem. Parada de 15 minutos num desses grandes postos onde todos os ônibus de todas as linhas descansam rapidamente seus motoristas para um xixi e um pingado. Eu fico no ônibus. Sentada na primeira poltrona do corredor no lado do passageiro, eu apenas espero o recomeço da viagem. Aliás, eu apenas esperava porque de repente vejo algo que me transporta rapidamente pra sensação de estar vendo um filme. Pelo pára-brisa gigante do ônibus eu vi uma mulher. Calça jeans, camiseta branca e casaco fino preto que tentava a esconder do vento. Cabelo preso, mas meio solto, um pouco desarrumado. Ela fumava. De pernas cruzadas apoiada sobre elas com um dos cotovelos, ela fumava. Tinha uma expressão de dor, de tristeza e de sofrimento. Sim, essas três mescladas. Mas por estranho que possa parecer dizer isso agora, ela se mostrava calma e confiante. Suas sobrancelhas quase se juntavam, mas ainda sim ela parecia serena. E ela fumava com muita vontade. Eu a senti saciar aquele desejo desesperado de um trago. Eu vi o prazer da nicotina se misturar ao peso da realidade que a comovia. O intervalo entre cada tragada era rápido, só uma tomada de fôlego para a próxima. Aquela cena, apesar de toda a minha descrição aqui, é inefável. E eu digo cena porque era uma cena e eu pensava: “não é possível, essa mulher tá atuando pra mim!”. Eu preciso carregar uma pequena filmadora comigo. A porta que divide o motorista dos passageiros estava aberta para que a livre circulação reinasse. Ela é feita de vidro grosso da metade pra cima. Mas naquele momento não era uma porta, era uma tela. Como se soubesse que eu me saciava com aquela cena, um menino ajuda a compô-la. Ele se senta em qualquer lugar que me permite vê-lo pelo vidro. Ele está de bermuda larga e chinelo, mas não me lembro mais se de moletom ou camiseta regata. Não me esqueço da sua inquietação. Sentado na ponta do banco largo de cimento que reveste a parede inteira do corredor que dá acesso aos banheiros, ele me pareceu ansioso. Ansioso e preocupado com alguma coisa. Talvez até com um pouco de medo. Mas a ansiedade dele não repercutia pelo corpo todo. Ela estava nos olhos que se movimentavam rapidamente e na cabeça que ora procurava um lado, ora outro. Então eu estava no melhor acento assistindo à cena mais espontânea e bem feita de toda a minha vida. Eu via a mulher diretamente pela cabine do ônibus e o via por um reflexo. Aqueles dois estavam um pouco distantes entre si, mas me pareciam formar uma unidade. A unidade da angústia humana; cada um do seu jeito. Aquela composição durou pouco mais que o tempo do cigarro dela. Mas foi única e irreprodutível. Houve um término que só era um fim de presença física. Ela continuou sentada. Como se fugisse discretamente de alguém o menino se levanta. De repente ele some do vidro, fica só ela, imóvel e acompanhada só por cada fumaça que saia de sua boca. Mas ele reaparece. Passa na frente da mulher do cigarro e some de novo. Ela fica alguns segundos com a bituca na mão, ainda de pernas cruzadas, olhando fixamente para qualquer ponto. Em direção contrária à do menino ela se levanta e sai de onde posso vê-la. A minha tela fica sem meus personagens queridos e intrigantes. Só vejo o banco largo agora, às vezes alguém passa na frente dele. Pra mim o silêncio instigante. Qualquer justificativa abominaria a beleza do que vi.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Plano Improvisado

A menina de cabelo branco e olho preto pegou a mala pesada. Saiu da casa de madeira antes do sol aparecer. A rua longa, reta e cinza tinha apenas pequenas moradias nas margens do asfalto. Carros não havia naquele lugar. Apenas patinetes, mas ela ia a pé e silenciosa. Os olhos saltados da garota branquela tinham um foco preciso. No final da rua havia um terreno com mato seco que dava para os fundos de um lugar. Difícil acesso. Mato tão seco quanto o aspecto das folhas avermelhadas e escuras que caíram das árvores aparentemente mortas. Para não chegar lá pelas portas da frente era preciso atravessar o aglomerado de plantas velhas altas. Como é comum que as pessoas busquem a entrada formal e mais fácil, alcançar o mato só era possível depois de descer um enorme barranco e ninguém se preocupava com isso. O tempo estava úmido. Ah, sim. O tempo estava úmido. Então se você criou a imagem de uma rua seca pense agora que ela está com vestígios de chuva que caiu na madrugada que ainda não acabou. 

O barranco estava escorregadio e o peso da mala atrapalhava o equilíbrio. Primeiro a mala, depois a menina; mala para frente, garota por último, menina adiante, mala atrasada. Com esse revezamento o caminho era menos perigoso. O sol já queria surgir, mas as nuvens não o deixavam ver o que garota quer fazer. Quanto mais íngreme ficava o morro mais improvável era achar firmeza para pousar a mala. A menina agora estava adiante do objeto marrom que, de repente, se desprendeu do paredão e caiu por cima dela. A pancada na cabeça provocou um desmaio imediato que as fizeram rolar, a mala e a garota, direto para o pé do morro. 

O menino estava muito magro. Desgastado com o cuidado que precisou ter com a irmã enferma. Uma doença sem nome e sem cura que os tirou da fazenda rumo àquela cidadela e com suas economias acabou. A irmã morreu. Ele não chorou, o que não significa que não sofreu, sofre. Sem dinheiro para o velório, o jeito foi resgatar o corpo da irmã às escondidas no hospital e guarda-lo em segredo até conseguir enterrá-lo. Dormia ao lado do corpo de sua irmã para descansar do esforço que foi cavar metade da cova em barro lamacento. Descansava ao lado de sua irmã morta quando uma barulheira alta de leveza e outra de coisa dura o fizeram se assustar. Só quando o silêncio veio outra vez é que percebeu como sua respiração ficou ofegante. Sentindo as batidas do coração nos lábios ele foi, paulatinamente, tentar entender o que se passara. Os passos calmos não condiziam com o medo que quase o dominara. Quase. Após vencer o mato se deparou com uma menina desmaiada. A menina desmaiada. A dos cabelos brancos. A menina dos cabelos brancos e olhos negros que carregava uma mala marrom pesada. Ele a pegou no colo, levou-a para seu abrigo improvisado numa espécie de guarita abandonada e tentou acordá-la. Fora os sinais vitais que funcionavam bem nada mais indicava vida ali. 

Ele se afastou para olhar. O corpo da irmã morta e uma estranha desconhecida desmaiada. Lado a lado. As duas garotas compartilhavam a incógnita da vida e da morte. Lado a lado. Elas não se conheciam e nem se falavam. Mas a proximidade com o fim as tornava semelhantes. Elas se comunicavam e ele não entendia aquela conversa, ele não poderia entender porque nunca morreu, nunca dormiu por anos e nem sequer já desmaiou. Pra ele a morte era o fim, o sono profundo era o nada e o desmaio era a dúvida entre esses dois caminhos. Para elas, a morte era uma possibilidade comum e nem um pouco espantosa, dormir por anos era o ápice da dor e o desmaio era a falta de decisão. Nisso ele acertou. 

Depois da boquiaberta falta de reação ele se lembrou da mala da menina desconhecida. Voltou onde tinha encontrado, o corpo?, ele pensou se era assim que deveria nominar a carne da garota de olhos escuros. Abriu a mala mais por interesse em encontrar pistas sobre sua nova companhia adormecida do que por curiosidade. Lá dentro tinha um saco grosso preto e uma folha amarelada dobrada por cima dele. O desenho era de um mapa. Um mapa do lugar onde eles estavam agora. Um “X” marcava o que deveria ser a localidade exata de, do... mas aqui só tem..., ele pensou. Pegou a mala e saiu. Dessa vez a passadas mais largas, em direção aos dois corpos femininos que tinham quase a mesma idade do corpo dele. As duas continuavam dormindo. Como se minha irmã pudesse acordar. 

As nuvens não deixavam o sol ver o que menino fazia, mas não conseguiam esconder sua luminosidade. O garoto seguiu guiado pela obscura claridade do céu e pelas coordenadas do mapa. Dentre tantos túmulos ele parou diante de um caixão que ainda não tinha sido enterrado. O cemitério era imenso. Estranho que numa cidade pequena morra tanta gente, mas é que ali as covas começaram a ser cavadas muito tempo antes. Algumas lápides eram inteiramente descascadas não fosse pelas fotos que permaneceram intactas atrás dos vidros. Os olhos de muita gente morta o observavam curiosos, pois nunca ninguém chegara sozinho pra um enterro sozinho. De pé como uma estátua ele ficou até sentir o vento gelado entrar pelos buraquinhos de sua blusa de lã. Sem entender o que tinha acontecido ou o que estava para acontecer ele retomou a mala. Abriu o saco grosso preto e além de uma pá, havia um ferro envergado na ponta que ele tirou dali. Sem pensar muito, mas pensando que não sabia se deveria fazer o que estava fazendo ele utilizou a ponta torta para abrir o caixão. E foi o que fez. Enquanto a testa molhada denunciava um esforço perigoso, os olhos das fotografias estavam mais esbugalhados do que estiveram no momento de suas mortes. 

Um corpo. Um corpo de menino na mesma idade do corpo dele. Se sua irmã e esse rapaz já não podiam ser salvos, tomara que a menina do cabelo branco desperte, pensou. Ficou ali parado. O caixão não era muito grande, mas o tamanho parecia suficiente para dois jovens quase da mesma idade. Se havia um corpo dentro de um caixão é porque haverá um velório. Precisava correr. Quando se virou para buscar a irmã morta viu que a menina de cabelos brancos tinha também olhos pretos enormes que se aproximavam ágeis. As jabuticabas olharam para ele sem condenar o ato ou afagar a cara assustada. Havia algo mais na mala pesada que ele não percebeu. A menina tirou uma caixa pequena da mala e da caixa um relógio. Grande, com um cordão que ficou largo no pescoço dela. A garota olhava apreensiva para o menino do caixão. O tic-tac do relógio no peito dela não parecia ter pressa. Quando os dois ponteiros se encontraram o barulho da hora combinada fez a menina desesperar. Ela começou a agitar o corpo no caixão, a gritar com ele, xingar. O irmão da irmã morta ouviu um tossido que não era nenhum pouco feminino. Os olhos dele e das fotografias demoraram em acreditar, mas o menino do caixão não só tossiu como se levantou. Abraçou a menina dos cabelos brancos que chorava. Ela o ajudou a sair do caixão e quando eles iam fechá-lo novamente o irmão da irmã morta disse espera. Virou as costas e correu. A garota dos olhos negros entendeu e disse ao que ressuscitou para segui-la. Mas o menino não deixou outro carregar sua irmã. Então a dos cabelos brancos e o que quase foi enterrado o seguiram. A que morreu doente tinha o peso de um pássaro. Com doçura seu irmão a deitou na madeira dura. Deu-lhe um beijo e uma lágrima dele ficou com ela. O relógio pendurado no pescoço da outra menina avisou que tinham que agir rápido. Ela afastou o garoto do caixão e com ajuda do que parecia estar morto fechou a tampa da eterna cama. O irmão só assistiu a tudo. Estático. Machucado. Dolorido. 

Os outros dois o pegaram pelo braço. Corriam. Correu com eles sem saber porque, sem saber para onde. Mas foi, afinal, ele era sozinho agora que conseguiu descansar sua irmã. Ele era triste sem o sorriso do seu pequeno pássaro. 

Os três seguiram por caminhos completamente desconhecidos por outros moradores da cidade. Ruas estreitas com asfalto velho os levaram para uma estrada. Caminharam até as nuvens pararem de implicar com o sol porque este também morreu hoje. Foi só em completo escuro novamente que eles conversaram. O plano da menina de cabelos brancos e do que quase foi enterrado não era mais um segredo só dos dois. Era também da que ficou e do que veio junto. O que veio junto soube da fuga, da simulação da morte. Whisky bebido em copo de estanho finge o fim da vida. Faz os outros acreditarem no fim da vida. Só dessa forma poderiam viver numa cidade de bicicletas.

domingo, 15 de abril de 2012

Último capítulo


Quando você chega de repente no meu quarto porque já tem as chaves da minha casa eu pouso o livro aberto na minha coxa esquerda pra não desmarcar o conto. Pernas levemente abertas pra não amassar as páginas ou não deixar o livro cair. E de alguma forma isso te excita. A mochila cai rápida no chão como se a gravidade para ela fosse maior. Você para e fica me olhando. Pergunto que foi e você diz nada continue o que estava fazendo. Então sorrio desconfiada e te olho de lado enquanto pego o livro de mim mesma. A leitura estava boa e eu prossigo. Até esqueço que você continua aí me olhando com sorriso apaixonado e olhar de tesão. 
"sempre carregava no bolso. Gasto pelo tempo, mas muito mais pelo uso frequente e viciado. Ela o abre e os traços propositalmente borrados, mas artisticamente feitos, denunciam um garoto que vive e sente o tempo todo. O furor em registrar o que pensava ou o que via era tanto que mesmo com páginas grossas havia tinta vazada na folha seguinte, na folha anterior. Tantas fotografias da dor de viver belamente feitas com tinta preta. Em meio a corpos derretidos e comprometidos, olhos ocos, rostos repulsivos, mãos mortas, cicatrizes cortadas e vontades anuladas, ela encontra um retrato seu. Um retrato seu feito por ele. Teria ele esquecido esse caderno velho de propósito? Justamente pra que eu me veja desenhada tão bonita, tão sorridente e tão sinceramente? E ao folhear essas páginas eu descubro tantas outras ilustrações de mim. Eu deitada com a barriga no colchão e as pernas no ar, eu sentada na cadeira com os pés descalços, eu enrolada na toalha, eu nua passando creme no meu corpo, eu dormindo. Teria ele esquecido esse trapo nojento cheio de rabiscos toscos de propósito? Propositalmente pra que eu veja que, apesar de não conseguir estar comigo agora, ele me ama? Pra que eu tenha certeza de que aquelas palavras ofensivas que não combinavam com sua boca eram mesmo uma pura bobagem ensaiada de quem prefere fingir o ódio a confessar a confusão e mentir pra me fazer esquecer?” 
Minha leitura é interrompida por suas mãos grossas sem que eu te percebesse chegando. O jeito como eu engoli o ar de boca aberta e me desprendi da cadeira num susto rápido; de alguma forma isso te excita mais. E ao sentir teus dedos nas minhas coxas eu penso no garoto que fugiu covardemente. Me entrego a esse pensamento, mas me entrego também à sensação delicada que sua mão compõe com a minha pele. Ela, dormente, se acende com seu carinho sensual que me instiga a te querer mais uma vez. E nos encontramos com os olhos e com os corpos. Estes tão juntos e desejados que meu prazer escapa em lágrimas. Rimos disso tudo sem nos desprendermos. Intensidade compartilhada que explode. 


E agora não sei se vou fugir covardemente como o garoto do livro esquecendo alguma pista que diz que te amo.

terça-feira, 13 de março de 2012

Novela Mexicana Virtual

- Então, vi que você adicionou aquela perua.
- Que perua, amor?
- A Marcela Gabriela.
- Marcela Gabriela minha prima?
- Marcela Gabriela perua!
- Ah, por favor, ela é minha prima. Como eu vou recusar o pedido de amizade dela?
Ela faz bico.
- Pense, meu amor. Nos almoços de família com que cara eu ia olhar pra ela?
- Diga que nem viu, que faz tempo que não entra no Facebook.
- Trocando informações dos jogos do clube toda semana com o meu primo?
Silêncio dela.
- Hum, é. Mas não precisava ter curtido tantas fotos dela.
- São fotos em que ela está com meus tios ou meus primos.
- Hum, é. Mas fique longe das atualizações de status dela.
- Ok, querida, ok.
- E a Fernanda?
- Que tem a Fernanda?
- Ela também é sua amiguinha no Facebook agora.
- Ah sim, fique tranquila que eu não vou curtir as fotos da esposa do meu melhor amigo.
- Eu não to falando da Fernanda Mariana, Francisco Roberto! To falando da Fernanda Cristina que entrou na redação semana passada.
- Ah... normal ué. Todos da empresa se adicionam.
- E se cutucam também?
- Como assim, amor?
- Eu vi que ela te cutucou!
- Mas como você...?
- Quando você foi ao banheiro esqueceu o Facebook aberto.
- Ah, mas ela que me cutucou, o que eu posso fazer?
- E você?
- Que tem eu?
- Você cutucou de volta?
- Não...
- Você cutucou de volta?
- Ah amor...
- Vo-cê cu-tu-cou de vol-ta?
- Ok, sim! Sim, cutuquei de volta!
- Como é que é?
- Mas não foi nada além disso.
- Ham! Continua!
- Foi só uma cutucadinha, amor.
- Aham! Quero saber o que rolou depois da cutucada.
- É... eu... ok, ok! Eu curti várias fotos dela, publiquei um vídeo na linha do tempo dela e mandei o link de um site novo sobre animais fofinhos por mensagem privada. Pronto, é isso. Você não viu nada porque não é amiga dela.
- Eu não to acreditando.
- Hum, e eu também marquei o nome dela numa atualização minha de status.
- E como eu não vi isso?
- Eu selecionei quem podia ver.
- Eu estou completamente decepcionada e desapontada com você! Como você pôde? Como?
- Eu...ah! Puf...
- Eu to te deixando e só volto quando tiver sua senha.
- Minha senha?
- Não, melhor! Só volto com você se fizermos um Facebook juntos. Um Facebook de casal.
- Mas amor!
- Não me chame de amor, Francisco Roberto! Não olhe pra mim, não fala comigo. Tchau.

Dias depois, pra não ter uma coisa assim tão dependente e indissociável, eles tinham dois perfis no Facebook. Mas dois perfis de casais. Francisco Roberto e Daniela Micaela está em um relacionamento sério com Daniela Micaela e Francisco Roberto.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Edifício Campinas


Essa campainha sempre me pula. A vizinha de cima só vem aqui pra pedir a garagem emprestada. Ela sabe que lá só ficam umas duas bicicletas que nunca tem carro porque meus pais não me visitam que cabe o carro extra dela sempre que precisar que é como uma garagem inútil porque a garagem das bicicletas fica em outro lugar que é lá que eu devia colocar as bicicletas. Ela, então, me cumprimenta quando nos vemos sem querer nos lances de escada porque não tem elevador aqui já que ela de várias em quando precisa ou quer usar a minha garagem.

Fiquei com vergonha do outro vizinho de cima depois que ele me viu com cadeiras mesas álcoois uma câmera fotográfica amigos bêbados no terraço disse que ia chamar a polícia. Não, ele não ia chamar a polícia nem precisava ter ficado tão puto assim, mas ele comentou depois com alguém que comentou comigo que ele ficou muito preocupado porque não tem muro lá e tinha bebida, né? A gente se da oi mesmo assim e eu nem tenho mais vergonha dele. Tenho é inveja já que ele mora sozinho e parece muito feliz. E tudo bem, parecer e ser é bem diferente, mas tem tanta gente que só parece e até prefere. O fato que é que ele mora sozinho, todavia, não parece solitário. Que sou eu que moro com duas e me sinto solitária. Deitada na cama, às vezes durmo pra não levantar. Me acostumo facilmente com pessoas agradáveis. É preciso ter cautela porque geralmente elas vão embora e minha cama fica grande demais outra vez.

Gosto de crianças, mas até as crianças curitibanas são difíceis de socializar. Só hoje o pequeno do apartamento ao lado trocou algumas palavras comigo. Conversamos sobre um helicóptero que cabe numa mochila e o perigo de pilotá-lo ali nos corredores. Papo cabeça. Quando percebeu que estava falando com uma estranha ele olhou para o chão e disse: “vamos, papai”. Mesmo com essa timidez territorial, digamos assim, ele me fez suspirar de carinho e lembrar que eu quero ter filhos, mas é bem provável que não tenha. É muita gente num mundo maluco com a natureza acabando. É muita gente nascendo pra tantas outras que querem ser adotadas. E uma criança ocupa muito tempo da vida.

Um dia eu desci correndo pra garagem quando ouvi o filho da vizinha feia da frente urrar de dor. Ele estava estatelado no chão. Barriga pra cima, reclamando de dor. Eu cheguei com calma ao lado dele e ofereci ajuda enquanto ele conversava com sua mãe pela janela. Achei estranho meu susto ter sido maior que o dela. Eu teria exagerado? Ouvi demais?
- Você tá com o controle do portão, filho?
- Tô.
- Então joga pra mim.
Eis que não quando o menino que segundos atrás chorava um choro que só depois percebi ser forçado se levanta tranquilamente, joga a porra do controle pra mãe dele que ainda está na janela e não desceu. O piá caminha agora sem dor alguma pela porcaria da garagem. Virei as costas e voltei pro meu quarto. Depois disso, as manhas do garoto duram mais tempo, porque a mãe dele continua com preguiça de descer as escadas. Ela também continua com cara de quem nunca me viu na vida quando seguro a porta pra ela passar.

“Agora você vai comer tudo isso e vai acordar um quilo mais gorda!”. “Você mentiu pra sua mãe? Eu não acredito! Eu achei que você tinha lavado a louça, mas você não lavou a louça e mentiu pra sua própria mãe! Não dá confiar em você!” Posso agora pegar a faca que acabei de afiar pra cortar carne vermelha e ver se ela é tão eficiente rasgando a pele de uma mulher que canta música de deus a tarde toda e nem sequer consegue dar carinho pra própria filha que não é doente psicopata ou tem síndrome do pânico é apenas adolescente?

Será que algum dia vão me processar eu por ter escrito esse texto?